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Crítica

Crítica: Guerra ao Terror

Um retrato digno de Oscar do vazio existencial da guerra

Marcelo Hessel
04.02.2010
17h00
Atualizada em
21.09.2014
13h58
Atualizada em 21.09.2014 às 13h58

Hoje um favorito ao Oscar, Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2008) foi lançado inicialmente no Brasil direto em DVD porque, entre outros motivos, o gênero vem com um histórico recente de má bilheteria. Outro motivo é a falta de nomes estrelados no elenco - mas aí já é, mercado à parte, uma questão que interessa à diretora Kathryn Bigelow (Caçadores de Emoção, K-19).

Não só escolher desconhecidos e jovens para os papéis principais, como também relegar os famosos e os "adultos" a participações especiais, é fundamental para o que Guerra ao Terror propõe: retratar a guerra não como um espetáculo spielberguiano, uma passagem obrigatória à maioridade, mas como uma espécie de purgatório, um serviço da mais baixa escala do trabalho que eventualmente é executado - por caipiras, negros, latinos, suicidas - com alguma dignidade.

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Não por acaso, já se tornou lugar-comum entre críticos e cinéfilos compará-lo aos filmes de guerra de Howard Hawks, em que o homem comum tem sua trajetória confundida - por mérito, não por predestinação - com a dos heróis. Em Guerra ao Terror, o herói, ou anti-herói, é o sargento James (Jeremy Renner). Ele chega à companhia Bravo dos fuzileiros em Bagdá faltando 38 dias para ser dispensado, e certamente vai viver cada um como se fosse o último.

O uniforme de James - que envolto em fumaça parece um astronauta na superfície estéril do Iraque - é o verdadeiro "armário da dor" do título original, uma roupa de proteção para os marines que desarmam bombas largadas em áreas civis. É uma rotina de operariado, mas do ponto de vista da dramaturgia tem um apelo bastante forte: um filme inteiro sustentado naquele clímax clássico, cortar o fio vermelho ou o azul do detonador.

Bigelow sempre teve mão boa para a ação - e, como ressalta o crítico Filipe Furtado em seu blog, toda informação sobre os personagens é dada no filme em função da ação - e nesse ponto Guerra ao Terror não decepciona. Inerente à ação há também a reflexão sobre a natureza catártica da guerra. Como diz a epígrafe que abre o filme (tirada do livro War is a Force That Gives Us Meaning, do jornalista e correspondente de guerra Chris Hedges), "a guerra é um vício".

Essa leitura psicologizante - martelada na figura constante do médico coronel da base militar - nunca é perdida de vista. O que diferencia Guerra ao Terror de produções recentes sobre o vazio existencial dos pelotões - de A Conquista da Honra e Soldado Anônimo à minissérie da HBO Generation Kill - é o reforço no conceito psicanalítico do desejo de morte.

Porque não há dignidade maior da perspectiva do soldado-operário, já que a questão é dar algum sentido a guerras administrativas como essa do Iraque, do que tê-la como cicatriz - e mesmo debaixo de todo o armário da dor o sargento James vivencia a guerra na carne. Quando ele entra debaixo do chuveiro sem tirar a roupa, ainda assim escorre sangue pelo ralo.

James respeita o sangue porque sabe, inconscientemente, como todo homem comum digno da eternidade do cinema, que a verdade está nos atos, e não no discurso. Repare nas cenas em que ele está de volta à sua casa: o sargento limpa a calha, lava cogumelos. Começa a falar do Iraque na cozinha e a esposa interrompe, com uma cenoura na mão, "corte isso aqui pra mim". Aquela máxima de que "o trabalho dignifica o homem" continua valendo, mas em Guerra ao Terror o trabalho é mais essencial: ele dá ao homem não só dignidade, mas uma identidade.

E se cortar legumes não basta mais para James, paciência. Ele não é o primeiro nem será o último a viver de guerrear. É, de qualquer forma, uma escolha mecânica, alienada, essa de viver da guerra. Na cena do sniper no deserto, o pente de balas já vem sujo de sangue mesmo antes de disparar.

Saiba onde o filme está passando

Nota do Crítico
Excelente!