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Crítica

Crítica: Gran Torino

Clint Eastwood faz apanhado de temas que marcam a fase "consciente" de sua carreira

Marcelo Hessel
19.03.2009
17h00
Atualizada em
21.09.2014
13h45
Atualizada em 21.09.2014 às 13h45

A relação mentor-aprendiz ecoa em Um Mundo Perfeito (1993) e Menina de Ouro (2004). A indisposição com a igreja também está em Menina de Ouro. A expurgação do passado violento remete a Os Imperdoáveis (1992). A falência do jeito Dirty Harry de fazer justiça lembra Sobre Meninos e Lobos (2003).

Em entrevistas, quando relembra seus 50 anos de carreira, Clint Eastwood mostra apreço especial por seu trabalho de diretor nos anos 1990 e 2000. Não é por acaso, portanto, que Gran Torino (2008) se revele um sólido apanhado desses temas que compõem a obra "consciente" do cineasta.

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Chega a ser redundante dizer: se o ícone de 78 anos morresse hoje, Gran Torino seria um respeitável testamento. Na verdade, o filme é desde o começo uma canção fúnebre para o personagem de Eastwood, o veterano de guerra Walt Kowalski. Ele está de pé, na igreja, diante da multidão, para o velório de sua esposa. A câmera não descola do rosto de Eastwood, enquanto seus filhos se perguntam o que vão fazer com o velho, agora que a mãe morreu.

O trabalho de campo e contracampo é intenso - Walt é centro de todas as atenções e devolve os olhares, rosto por rosto -, como se Eastwood, mais do que nunca, se mostrasse perplexo com os caminhos que o mundo tomou depois dos anos 70. É evidente que Walt é um anacronismo, com seu gramado aparado e seu Ford Gran Torino de 1972, e um estorvo, com sua latinha de Bud na mão e sua patriótica bandeira hasteada, em meio a uma vizinhança de imigrantes que não sabem falar inglês.

Gran Torino se desdobra de forma muito simples, em relação ao arco de Walt: veterano de guerra preconceituoso mas de coração amanteigado se vê numa situação em que precisa repensar sua visão de mundo. O que o filme tem de sofisticado (e esse é o grande talento do Eastwood cineasta, herança dos mestres como John Ford) é que só "parece" simples. Quando o padre faz seu discurso principal na varanda de Walt, por exemplo, a ventania ao fundo dá à cena mais drama. Pensar que o vento é um acaso seria subestimar Eastwood. O vento "parece" um acaso.

Há as fraquezas, claro. O tique classicista com que Eastwood privilegia o campo-contracampo causa ruído, em algumas cenas, com a escolha pela câmera na mão - a primeira linguagem pressupõe rigor de enquadramento e a segunda combinaria melhor com fluidez de close-ups. Outra deficiência, já conhecida, é a direção irregular de atores. Nos momentos mais densos, Bee Vang, o intérprete do hmong Thao, simplesmente não dá conta do serviço. De resto, Gran Torino, com seus altos e baixos de humor agridoce e de violência gráfica, é irretocável.

Não há como resistir mesmo à imagem do velho durão. Outra demonstração de sofisticação, esta certamente adquirida com as décadas, provavelmente aprendida com Sergio Leone, é a forma como os enquadramentos valorizam a presença de cena do ator. Eastwood cresce pra cima de jovens negros e chineses só com um mero reflexo no espelhinho da sua caminhonete. Aquela piada de Todo Poderoso em que Jim Carrey se torna o ícone dentro do carro é certeira: não há visão mais assombrosa do que ter que encarar Clint Eastwood pelo retrovisor.

A diferença, quando ele pisa para fora do carro, é que a Magnum .44 já não está mais no coldre. Resta a presença.

 

Gran Torino
Gran Torino
Gran Torino
Gran Torino

Ano: 2008

País: EUA

Classificação: 14 anos

Duração: 116 min

Direção: Clint Eastwood

Elenco: Clint Eastwood, Cory Hardrict, John Carroll Lynch, Geraldine Hughes, Brian Haley, Dreama Walker, Doua Moua, Brian Howe, Sarah Neubauer, Lee Mong Vang, Nana Gbewonyo, Christopher Carley, Bee Vang, John Anton, Austin Douglas Smith, Ahney Her, Ramon Camacho, Rio Scafone

Nota do Crítico
Excelente!

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