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Homens e Deuses | Crítica

Concorrente da França ao Oscar, premiado em Cannes, encontra a hombridade que há nos votos de fé

Marcelo Hessel
14.04.2011
18h54
Atualizada em
21.09.2014
14h09
Atualizada em 21.09.2014 às 14h09

Apropriadamente, chama-se Christian o monge cisterciense francês que impede a entrada de armas no mosteiro instalado em Tibhirine, na Argélia. Transcorre em 1996 a guerra civil no país, e os insurgentes jihadistas assassinam operários croatas e intimidam a população árabe. É uma questão de tempo até que tomem o mosteiro, mas Christian, vivido em Homens e Deuses (Des Hommes et des Dieux, 2010) pelo ator Lambert Wilson, recusa a ajuda armada do governo argelino.

O filme do diretor Xavier Beauvois, vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes e escolhido da França para disputar um lugar no Oscar de melhor filme estrangeiro em 2011, reconta o episódio real ocorrido no mosteiro trapista, cujo desfecho até hoje é motivo de controvérsias. Beauvois está interessado, de qualquer forma, menos no final do que no trajeto: mostrar o que envolve a decisão dos franceses de permanecer desarmados no país em conflito, posição que qualquer pessoa veria como opção pelo martírio.

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O primeiro terço de filme se dedica a mostrar como os monges - compatriotas de uma nação que, na visão do presidente da Argélia, atrasou com seu imperialismo o desenvolvimento da ex-colônia - conciliam a liturgia católica com a atenção às necessidades da vila muçulmana que cresceu ao redor do mosteiro. A literatura árabe que sempre aparece nas mãos dos franceses é um símbolo óbvio, em um filme que inicialmente se ocupa em registrar sem pressa a rotina em Tibhirine: os estrangeiros distribuem calçados, alimentos e remédios, comparecem a festas de aniversário e batem palmas no ritmo da cantoria árabe.

Uma das cenas mais importantes desse começo de Homens e Deuses é o primeiro de muitos cânticos que escutamos entoados na capela. São sete os monges, todos eles de costas para a câmera. Representam, ali, a unidade da igreja - uma igreja que tem no mapa-mundi pregado na parede o seu post-it perpétuo. A partir do momento em que surge a ameaça terrorista - e os seis outros monges condenam a decisão que Christian toma sozinho - as individualidades começam a despontar. Há quem queira partir de volta para a França, outros querem ficar. Até o seu final, Homens e Deuses se ocupará de encontrar os sete homens por baixo das vestes dos monges.

E é em momentos assim que não apenas se identificam os homens de valor como também os religiosos de fé. Ao mesmo tempo em que, progressivamente, deixa a vila de lado, a câmera de Beauvois busca as trivialidades do mosteiro, humaniza os monges. Numa manhã, um diz que gostou muito de um sermão de Christian, outro responde que não entendeu nada, e leva de volta um xingamento.

Nesse ponto, os cânticos já acontecem com os rostos voltados para a câmera. O ápice é a ceia em que toca numa fita cassete "O Lago dos Cisnes" de Tchaikovsky, e Beauvois vai, um a um, fechando os close-ups nos homens, a essa altura já decididos em relação ao futuro do mosteiro. Num filme que fala sobre a leitura que tanto católicos quanto muçulmanos fazem de seus escritos sagrados, e a responsabilidade que essa leitura acarreta, Homens e Deuses parafraseia o salmo que, nos créditos iniciais, havia servido de epígrafe: "Vós sois deuses / Todavia morrereis como homens".

Homens e Deuses | Cinemas e horários

Homens e Deuses
Des Hommes et des Dieux
Homens e Deuses
Des Hommes et des Dieux

Ano: 2010

País: França

Classificação: 12 anos

Duração: 122 min

Direção: Xavier Beauvois

Roteiro: Xavier Beauvois

Elenco: Lambert Wilson, Michael Lonsdale, Olivier Rabourdin, Philippe Laudenbach, Jacques Herlin, Loïc Pichon, Xavier Maly, Jean-Marie Frin, Abdelhafid Metalsi, Sabrina Ouazani, Abdellah Moundy, Olivier Perrier, Farid Larbi, Adel Bencherif, Benhaïssa Ahouari, Idriss Karimi, Abdellah Chakiri, Goran Kostić, Stanislas Stanic, Arben Bajraktaraj, Zhour Laamri, Raouia, Farid Bouslam, Fadia Assal, Maria Bouslam, Soukaïna Bouslam, Rabii Ben Johail, Saïd Naciri, Hamid Aboutaieb, El Alaoui El Hassan

Nota do Crítico
Ótimo