Filmes

Crítica

Crítica: Federal

Tropa de Elite genérico compra o discurso de que justiça (e cinema) se faz na prática

Marcelo Hessel
26.09.2010
18h12
Atualizada em
21.09.2014
14h08
Atualizada em 21.09.2014 às 14h08

[Atualizado em 8/10] Uma retificação. Segundo o material do filme cedido à imprensa, o roteiro começou a ser concebido em 1987 e em 2001 foi selecionado para o laboratório de Sundance. As filmagens aconteceram entre setembro e novembro de 2006 - portanto, 11 meses antes da estreia de Tropa de Elite, que aconteceu em outubro de 2007.

Federal estreia em 29 de outubro de 2010 porque "foram necessários mais alguns anos conversando com empresas e participando de editais para conseguir finalizar e comercializar o filme no padrão almejado", diz o material.

federal

None

federal

None

federal

None

Em nome da transparência com o leitor, o teor do texto original abaixo, apesar dos erros factuais, não será alterado. Que o espectador compare os dois filmes e tire as suas próprias conclusões. [Fim da atualização]

---------------

Estava demorando para acontecer. Tropa de Elite 2 vem aí e terá a companhia nos cinemas de uma versão de segunda. Federal tenta fazer com a Polícia Federal um pouco do que o sucesso de 2007 de José Padilha fez com o BOPE: um filme quase institucional, pra levantar o moral da corporação, enquanto traça um cenário supostamente complexo da rede de causas e consequências da criminalidade urbana.

A repetição de situações merece uma lista. Oficial negro que acaba de entrar para o grupo fechado? Tem. Chefe com esposa grávida? Tem. Denúncia de tortura por asfixia? Tem. Balada com jovens drogados? Tem. Flertes fascistas (fulano morre porque deixou de matar um menor, outro morre depois de pegar a prostituta)? Tem também. Final com o herói "consciente" enfim sujando as mãos de sangue na contraluz? Tem.

O fato de Federal ter um oficial que também se chama Matias... Isso já deve ser coincidência.

Não dá pra dizer que o diretor e corroteirista Erik de Castro emula Tropa de Elite por más intenções. Está mais para uma crença num discurso que provou em 2007 ter apelo popular. O brasiliense Erik de Castro (que faz uma ponta no filme como um dos federais) já dirigiu dois documentários e produziu outro de uma trilogia sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial - para ele, o orgulho militarista já existia muito antes de Tropa de Elite.

O problema é, antes de mais nada, o próprio discurso. Se Tropa de Elite já tinha dificuldade em lidar com a quantidade de pontos de vista que levantava, Federal patina com gosto naquilo que entende ser um retrato do país, entre suas frases feitas e situações-clichês. Ao longo do filme, a equipe de federais liderada por Carlos Alberto Ricceli fará o tour completo por Brasília, sem mandado de busca: ONGs de fachada, igrejas evangélicas, tráfico na alta roda, negociações com o DEA (representado pelo tarantinesco Michael Madsen), telefonemas sem rosto do Palácio do Planalto.

A forma como Federal reduz as questões fica evidente nas interações constrangedoras entre personagens (federais torturando um preso e olhando-se entre si, como se dissessem "sim, estamos eu e você cientes de que estamos torturando um preso") e na quantidade de epítetos simplistas que aplica. O Brasil é a "nova Colômbia", Venezuela é "terra de mulher bonita", Brasília é a "capital do pó".

Quando Eduardo Dussek aparece de gola rolê preta no papel de vilão, a caricatura do filme de ação estilo "justiça com as próprias mãos" se consuma. Emular Tropa de Elite e defender que o combate ao crime (e também o cinema) se faz na prática, ignorando a "burocracia" da teoria, dá nisso: um filme com dedo mole para o gatilho que, na ansiedade de salvar o dia, não para um minuto para ver onde está atirando.

Nota do Crítico
Ruim