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Crítica

Crítica: Do Começo ao Fim

Filme se enrola na bandeira gay e tropeça quando tenta sair da defensiva

Marcelo Hessel
26.11.2009
16h00
Atualizada em
21.09.2014
13h55
Atualizada em 21.09.2014 às 13h55

Mesmo que você chegue a uma sessão de Do Começo ao Fim sem saber que se trata da história de um relacionamento gay entre meio-irmãos, não leva muito para descobrir.

No dia em que Thomás nasce, acompanhamos a espera de seu irmão seis anos mais velho, Francisco, numa sala do hospital. O menino fala de livre-arbítrio, de escolhas que se fazem no simples ato de abrir os olhos para o mundo. Corta para os dois, uns sete anos depois, falando sobre pássaros: "Nunca vou deixar que prendam a gente numa gaiola". Thomás e Francisco sequer descobriram sua sexualidade e já dominam o discurso contra o preconceito.

do começo ao fim

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Essas primeiras cenas dizem muito sobre a maneira como o diretor e roteirista Aluizio Abranches escolheu trabalhar o tema: na defensiva, como se tivesse que justificar a todo momento a escolha "polêmica" que fez (polêmica, entre aspas, porque não é a primeira vez que amores incestuosos ou gays ganham as telas, e certamente não é a mais explícita), e politicamente, colocando a bandeira do movimento à frente do drama a dois.

Então Do Começo ao Fim tenta se equilibrar no meio dessa não-questão: como retratar os homossexuais para um público que, sabendo do filme a que vai assistir, já os encara com naturalidade? Abranches toma decisões que deveriam somar, mas se anulam: quer mostrar um amor gay com naturalismo (Thomás e Francisco fazendo a barba juntos) mas também com solenidade (a cena da primeira transa), quer falar do tema sem pudor (o texto reto de Cartas de um Sedutor de Hilda Hilst) mas concebe toda a estética ao redor de Thomás e Francisco com higiene, como se fosse um comercial de margarina.

A evidência mais contundente de que Abranches se acha na urgência de sempre justificar a escolha que fez está no anti-clímax do filme, quando a orientação sexual de um dos personagens é colocada à prova. O simples fato de insinuar que a homossexualidade se valida porque o cara tentou e não conseguiu ser hétero já implode todo o discurso politicamente correto que o filme vinha martelando antes.

Considerando que Abranches não filmava há sete anos, dá pra fechar os olhos para os deslizes mais imediatos (a literalidade dos diálogos, o retrato estereotipado do argentino machão). Problemática mesmo é a sua aproximação do objeto: homens se tocando "para a câmera", o sexo tratado como uma vitrine e não como uma intimidade, a cafonice da luz do sol que banha corpos como se fosse necessária uma permissão divina (a permissão da mãe?) para Thomás e Francisco se amarem.

Não está já na hora de tratar o tema sem todas essas mistificações?

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Nota do Crítico
Regular