Devoradores de Estrelas envenena o Sol para cultivar a esperança de um novo dia
Filme transforma tragédia apocalíptica em drama sobre autoaceitação e busca por um novo propósito
Ryland Grace (Ryan Gosling) se considera uma fraude. Sua única ideia original enquanto cientista, a ousada teoria de que hidrogênio e oxigênio não são necessários para a existência de vida fora da Terra, é rejeitada por toda a comunidade científica. Sua síndrome do impostor então o tira da academia e o lança na carreira de professor de jovens, mas espertas crianças - e ele parece viver bem com isso. Mas tudo muda quando Eva Stratt (Sandra Huller) aparece e o recruta para uma missão de importância global: salvar o Sol (e por consequência a Terra), dos Devoradores de Estrelas, cientificamente conhecidos como astrofágicos.
O filme de Phil Lord e Christopher Miller já começa com o jovem cientista despertando no espaço, sem saber onde está ou o que fazer. Suas memórias se organizam com o tempo e, conforme elas surgem na mente de Grace, o espectador também é convidado a conhecer os passos que o levaram para dentro daquela nave. Esse clima de suspense é misturado de forma perspicaz ao bom-humor do roteiro que Drew Goddard (Perdido em Marte, Cloverfield) escreveu com base no livro homônimo de Andy Weir – e à excelente trilha sonora de Daniel Pemberton.
As pitadas de comédia funcionam de forma ainda mais eficiente graças à boa atuação de Gosling, que equilibra o tom do filme enquanto o próprio afunda cada vez mais em uma trama niilista e desesperançosa: a humanidade tem menos de três décadas de vida e a única forma de salvá-la é uma incursão espacial em busca de uma resposta que eles nem ao menos sabem que existe. Por isso, o cientista é enviado para outra galáxia, mas desperta com o restante da tripulação já falecido. Sozinho, ele decide fazer a diferença e inicia sua pesquisa por respostas, até que é interceptado por uma nave alienígena.
Nesse momento, o filme chega na jornada que estava tentando propor até agora e o gelado ar de existencialismo dá lugar ao caloroso conforto da esperança. Enquanto vemos a tradicional tentativa de comunicação entre espécies, fica claro que a intenção dos seres misteriosos é boa e logo Grace percebe que eles possuem objetivos em comum: descobrir como impedir o avanço dos astrofágicos em suas respectivas estrelas. A conexão avança e o primeiro contato visual acontece. Grace e Rocky, o ser de pedra que surge da nave, criam um sentimento mútuo que logo avança para uma verdadeira amizade - tão forte quanto o cientista jamais vivenciou em sua vida terrena.
A química entre esses dois personagens tão inusitados se torna o motor do filme quando o próprio protagonista está à deriva no espaço. Juntos, eles compartilham suas histórias, sonhos e o que sabem sobre a forma de vida que ameaça ambas as espécies. Além disso, a existência de Rocky confirma a ex-maldita teoria de Grace, mostrando que há seres além de hidrogênio e oxigênio. Em pouco tempo, a relação entre os dois devora qualquer outra interação que o filme possa ter tentado emplacar e, de repente, nem mesmo a vida humana importa mais do que o bromance criado entre homem e pedra. Essa é, sem dúvidas, a maior dádiva do filme.
Através da dupla, a obra cria brechas para brincar com a ciência e fazer de experimentos e incursões espaciais uma nova forma de entretenimento. Para isso, o espectador é levado a uma experiência visual muito interessante na qual o foco não fica em raio lasers e pura destruição, mas no andar de uma pedra, no flutuar de uma célula alienígena ou em um planeta pacífico, mas envolto em uma névoa multicolor.
Uma ficção científica que coloca o sentimento na frente da ciência, Devoradores de Estrelas mantém o Sol ardendo para aquecer o coração de seu espectador. Fazendo seu protagonista provar seu próprio valor para descobrir sua nova paixão, o filme mostra que sempre há esperança, mesmo quando escondida na autodepreciação. Essa virada de chave do ceticismo para a esperança e o perdão faz do longa-metragem um bálsamo necessário para tempos em que a incerteza sobre o futuro coloca em xeque nossa motivação para seguir em frente - como os que vivemos hoje.