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Crítica

Crítica: Coração Vagabundo

Documentário sobre Caetano Veloso captura momento de mudança em sua trajetória

Eduardo Viveiros
23.07.2009
17h00
Atualizada em
03.11.2016
04h22
Atualizada em 03.11.2016 às 04h22

Um jovem e empolgado cineasta, mais um artista que tem o dom de falar sobre tudo sem (aparentemente) perder o fio da meada, divididos por uma empresária esperta e mão de ferro. É essa a equação que levanta a fervura de Coração Vagabundo, documentário sobre Caetano Veloso e primeiro longa a levar a assinatura de Fernando Grostein Andrade.

Menino prodígio, a história de Andrade e seu filme fazem a linha conto de fadas. Aos vinte e poucos anos, o rapaz chamou a atenção de Paula Lavigne (eterna empresária e então mulher de Caetano), que o agenciou como câmera de bastidores. Ou seja, para registrar um rápido making-of da turnê do cantor, que preparava o lançamento do disco de covers A Foreign Sound.

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No final do caminho, dois anos depois, a história já era outra. Caetano já tinha passado por São Paulo, Rio de Janeiro, EUA e Japão, e Andrade acumulava quase 60 horas de imagens e pensatas do cantor. Nada mais natural do que aproveitar esse bom material de uma forma mais inteligente.

Apesar de algumas cruezas e maneirismos, Coração Vagabundo é uma ótima estreia, livre de grandes presunções. Andrade ainda é um cineasta em formação e documentarista sem fronteiras, mas se resolve bem com sua vontade obsessiva em percorrer o caminho de seu entrevistado. Se peca em não questionar o que Caetano diz (afinal, de certa forma, é um "filme encomendado" pelo próprio documentado), o rapaz acerta no erro: deixa o músico falar e falar e falar. Coisa que o baiano sempre fez muito bem - concorde-se ou não com o teor de suas eternas pensatas.

Auxiliado por roteiro e montagem, Caê brilha no picadeiro que foi armado sobre sua cabeça. Conta piadas, opina e discursa displicentemente sobre tudo: música americana e tropicalismos, Deus e doces de feijão, velhice, cinema e Gisele Bündchen.

Correndo por fora, Andrade tem o toque de Midas no currículo, ao registrar fantásticos depoimentos do círculo de amizades de Caetano, aproveitando para fugir do óbvio - Gilberto Gil e outros baianos não abrem a boca por aqui. Pedro Almodóvar, com quem na época o músico gravara participação no filme Fale com Ela, revela ao diretor que Paula Lavigne é uma de suas musas inspiradoras. Outro que participa, e é dono da cena mais emotiva do longa, é o falecido cineasta Michelangelo Antonioni.

Coração Vagabundo é um documentário, mas não se propõe a biografar Caetano. Muito pelo contrário, Andrade não está interessado em posterizar sua história. E é aí que está a grande força - e a rápida poesia - do longa.

As gravações (entre 2003 e 2005) focaram Caetano em um momento chave da sua carreira recente. Gravando um disco de covers em inglês - incluindo sua polêmica versão para "Come as you are" de Kurt Cobain -, ele dava o ponto de partida para sua atual faceta, com dois discos de verve roqueira sob o suvaco e uma banda mais jovem nas mãos. Ao mesmo tempo, na vida pessoal, o casamento em crise com Paula Lavigne culminava na separação do casal.

A convivência entre marido e mulher é o verdadeiro subtexto de todo o filme. É ela a primeira pessoa a aparecer na tela, abrindo a porta do banheiro para que ele apareça nu diante da câmera. Para os espectadores, o tratamento de Paula com Caetano durante todo o filme pode causar estranheza e desconforto.

Mais adiante, em um vale japonês, Caetano aparece acabrunhado. É o único momento de todo o filme em que se recusa a falar, deixando bem claro o desquite. É no mesmo país, aliás, em que o músico é totalmente desarmado - quando um monge budista diz em português tacanho que "Coração Vagabundo" é sua música preferida e o baiano não consegue reagir.

A canção que dá título ao filme é, de certa forma, a primeira gravação de Caetano (ao lado de Gal Costa no disco Domingo, de 1967). E ali, ao lado da separação de Paula, acaba encerrando um ciclo de décadas na vida do cantor. Daí pra frente, o homem virou roqueiro e tenta perseguir sua juventude transviada, a mesma do diretor que o persegue. E que, na sua afobação juvenil, nunca deve ter imaginado o quanto seu registro era providencial.

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Coração Vagabundo
Coração Vagabundo
Coração Vagabundo
Coração Vagabundo

Ano: 2008

País: Brasil

Classificação: 10 anos

Duração: 60 min

Direção: Fernando Grostein Andrade

Nota do Crítico
Bom

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