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Crítica

Crítica: Contatos de 4º Grau

História de abdução que diz ser real interessa pelo que tem de farsesca

Marcelo Hessel
31.12.2009
12h00
Atualizada em
21.09.2014
13h56
Atualizada em 21.09.2014 às 13h56
Revelar a falsidade de uma suposta história real conta como spoiler? Se contar, então desculpe: o texto abaixo contém alguns.

O suspense de abdução Contatos de 4º Grau (The Fourth Kind) narra um evento acontecido em Nome, cidade no Alasca. Diversas pessoas sonhavam com a mesma coisa, a aparição de uma coruja, e relataram o caso à psiquiatra Abigail Tyler. Em sessões de hipnose, ela concluiu que todas haviam sido abduzidas por extra-terrestres - e Abigail termina, ela própria, hipnotizada por um colega de ofício, descobrindo que também teve contato com alienígenas.

contatos de 4º grau

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O filme trata essa história como fato. Milla Jovovich se apresenta para a câmera dizendo que interpretará a doutora Abigail na reencenação do caso. Ao mesmo tempo, o diretor do filme, o nigeriano Olatunde Osunsanmi, surge em fitas entrevistando a psiquiatra na Universidade Chapman. Contatos de 4º Grau tenta se lastrear, frequentemente, dividindo a tela no meio, com as imagens de arquivo da entrevista da suposta Dra. Abigail real, à esquerda, e as cenas com Jovovich à direita.

O caso é que Contatos de 4º Grau é tão verídico quando a invasão de OVNIs narrada no rádio por Orson Welles em 1938. Nunca existiu Abigail Tyler em Nome. Sites que "comprovavam" a existência da doutora, como o Alaska Psychiatry Journal ou o Alaska News Archive, ambos fora do ar, tiveram os seus domínios registrados em outubro deste ano - enquanto a história data de 2000. A própria Chapman University, onde Osunsanmi teria entrevistado Abigail, se espanta com a quantidade de pessoas que acreditam na trama. O diretor usa o logotipo e o nome da universidade porque pediu autorização. Ele se formara lá em 2000, em Belas Artes, com especialização em audiovisual.

Não é preciso muito para catar as contradições. Abigail aparece no começo com o rosto granulado, e depois não mais... A própria Nome, pintada no filme com montanhas neblinadas, é uma cidade essencialmente plana. A questão não é martelar essa denúncia da farsa - que deve interessar só a ufólogos e conspirólatras em geral - mas entender por que Contatos de 4º Grau se esforça tanto para montar e mantê-la.

A verdade na farsa

Entra a ideia de que uma história de terror "baseada em fatos" pode assustar mais do que uma história de terror "inventada". É uma premissa cada vez mais presente na produção do gênero em Hollywood - assim como muito drama hoje ganha "validade" junto ao público se de fato ocorreu - e certamente muita gente comparará o trabalho de Osunsanmi a A Bruxa de Blair e Atividade Paranormal. Mas Contatos de 4º Grau vai mais longe.

O paralelo que me vem à cabeça é com o documentário-ensaio de Eduardo Coutinho Jogo de Cena. No filme, o brasileiro coloca, por exemplo, duas mulheres para relatar à câmera a mesma história de vida, sem abrir para o espectador qual delas é atriz e qual realmente viveu aquilo. Contatos de 4º Grau opera numa frequência parecida: é o choque de duas interpretações, de Jovovich e da atriz que faz a Abigail "real" (atriz que não é creditada no filme, evidentemente), que gera dramaticidade. Um choque de representação.

Como Milla Jovovich é violentamente mais bonita do que o seu duplo, então o rosto chupado, o cabelo escorrido e os olhos enormes da outra - olhos esses que, sob vários focos de luzes, parecem criação de animê - meio que dão autenticidade à Abigail "real". Sabe-se ou suspeita-se da grande mentira que é Contatos de 4º Grau, mas a atuação de Abigail é tão "convincente" que esse golpe de casting acaba dando ao falso um pouco de íntegro. Uma verdade, teatral, nascida da farsa.

Tudo depende da disposição de quem olha. Osunsanmi reafirma a todo instante a importância dos sentidos: planos-detalhes constantes nas câmeras dos psiquiatras e no fone do gravador, hipercloses hipnóticos nos olhos da coruja, tempos de planos mais longos do que seria esperado de um montador hoje em Hollywood. Críticos nos EUA reclamaram que em Contatos de 4º Grau falta ação. Pois é o contrário: há na fotografia em Scope um senso de preservação da imagem (nem que seja um afetado movimento de câmera que passa de plano para contraplano sem corte), na hora de criar clima, que é invulgar - e a expectativa serve, neste caso, como uma espécie de ação.

Isso permite que um filme teoricamente apegado ao susto se torne algo mais sofisticado: ofereça pavor, pelo menos nas cenas que envolvem observação e registro dos relatos de abdução. Fãs do gênero talvez vibrem com menções a medos clássicos dos contatos imediatos, como a temível sonda anal ET, mas no fundo o grande interesse do filme reside mais nos sintomas do medo do que no medo em si - o que paradoxal e automaticamente relega a segundo plano tudo o que o filme insistia ser fato.

O factual não interessa. Perdoa-se a dramaturgia rasteira de Contatos de 4º Grau - coadjuvantes encaixados nos estereótipos do médico crente, do médico cético; subtrama policial porca - em nome dessa manipulação do medo.

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Contatos de 4º Grau
The Fourth Kind
Contatos de 4º Grau
The Fourth Kind

Ano: 2009

País: EUA

Classificação: 16 anos

Duração: 98 min

Direção: Olatunde Osunsanmi

Elenco: Milla Jovovich, Will Patton, Hakeem Kae-Kazim, Corey Johnson, Enzo Cilenti, Elias Koteas, Eric Loren, Mia McKenna-Bruce, Raphaël Coleman, Daphne Alexander, Alisha Seaton, Tyne Rafaeli, Pavel Stefanov, Kiera McMaster, Sara Houghton

Nota do Crítico
Bom

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