Rodrigo Lombardi e Ivan de Almeida em Carcereiros - O Filme/Globo Filmes

Créditos da imagem: Globo Filmes/Divulgação

Filmes

Crítica

Carcereiros - O Filme

Filme nacional apresenta boa ação, mas tropeça em exageros

Nicolaos Garófalo
23.11.2019
10h00

Após duas temporadas de sucesso no Globoplay e na Rede Globo, Carcereiros, inspirado no livro de Drauzio Varella, foi transformado em filme com uma história ainda inédita nas plataformas globais. Com grande parte do elenco original de volta, o longa mantém a fórmula dinâmica que conquistou o público nas telinhas, com uma ação raramente vista no cinema nacional de massa. Embora consiga, na maior parte do tempo, entreter com diálogos afiados e sequências de tirar o fôlego, o filme perde o espectador ao elevar todas as suas peculiaridades a um nível além do verossímil.

Mostrando mais um dia na vida do carcereiro Adriano (Rodrigo Lombardi) e seus colegas em uma penitenciária de São Paulo, o filme reintroduz a dinâmica do protagonista com os presos, apresentando os personagens e seus papéis para espectadores não familiarizados com a série. Apesar de parecer expositiva demais, essa rápida introdução contextualiza Carcereiros de maneira prática, permitindo que os 110 minutos do filme sejam quase todos ocupados pela trama principal, que se beneficia da inexistência de paradas desnecessárias.

A trama de Carcereiros gira em torno da prisão de um terrorista (Kaysar Dadour), que passará a noite no presídio comandado por Adriano antes de ser transferido para o exterior pela Polícia Federal. A chegada do criminoso, acusado de colocar uma bomba em uma escola, revolta alguns presidiários, que ameaçam iniciar uma rebelião para matar o novo colega de cárcere. Essa tensão inicial entre Adriano e os líderes das facções da cadeia estabelece de maneira competente o lugar que cada personagem tem na trama e transforma cada cela em uma bomba-relógio.

Especialmente nas cenas que mostram as relações entre os presos, a direção de José Eduardo Belmonte se destaca por criar uma atmosfera claustrofóbica dentro da prisão que, apesar de populada por personagens um tanto caricatos, reflete um pouco da realidade do sistema carcerário brasileiro. Carcereiros não esconde o controle que os presidiários exercem sobre o sistema, seja influenciando nas refeições distribuídas para cada pavilhão ou as regalias que criminosos do “colarinho branco” conseguem acessar mesmo isolados da sociedade.

Por outro lado, o sotaque extremamente carregado do protagonista e as seguidas vezes em que os presos fazem um dos guardas de reféns - só o personagem de Ivan de Almeida é segurado, pelo menos, três vezes em um intervalo de quarenta minutos - trazem desnecessários exageros para o filme, que vez ou outra parece uma sátira de si mesmo. A equipe de mercenários que invade o presídio, apesar de proporcionar um bom combate com presos e guardas, estaria mais à vontade em um longa de Rambo do que enfrentando Kaysar, Lombardi e um punhado de traficantes. Jackson Antunes, que vive o Comandante desse exército privado, atua de maneira cartunesca, fazendo com que seja impossível levar o vilão a sério.

As sequências de ação do filme sofrem do mesmo exagero presente em outras cenas: apesar de bem executadas, elas rapidamente saem do controle e, assim como as atuações de Lombardi e Antunes, beiram a sátira, se desprendendo completamente da realidade. Em determinados momentos, Carcereiros se esquece completamente da trama e mostra tomadas seguidas de violência apenas para chocar.

Os poucos segundos de respiro no filme são proporcionados por Rômulo Braga, que vive Juarez, líder da principal facção criminosa que habita a cadeia. O ator é o único cujo papel se mantém estável na realidade e sua interpretação cria um personagem tão carismático quanto ameaçador. Seja como vilão ou aliado, Juarez comanda cada uma das cenas em que aparece, incluindo uma engraçadíssima negociação com mercenários que invadem o presídio.

A atuação de Braga se apoia no bom trabalho de um roteiro objetivo, assinado por Marçal Aquino, Fernando Bonassi, Marcelo Starobinas e Dennison Ramalho. Mesmo que algumas cenas mais violentas tomem proporções irreais, o texto do quarteto apresenta bons diálogos que não só situam muito bem o espectador, como avançam a trama de forma natural, principalmente quando o foco está na troca de palavras e não na de tiros.

Embora Carcereiros se deixe levar pelo exagero, seus personagens interessantes e as boas cenas de ação divertem, ao mesmo tempo em que o filme expõe alguns problemas reais do nosso sistema carcerário. Objetivo, bonito e dinâmico, o longa é entretenimento certo para fãs de filme de ação, embora não traga nada realmente novo para o gênero.

Nota do Crítico
Bom