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Crítica: Brilho de uma Paixão

É fã de amores puros, castos e impossíveis? Esqueça Crepúsculo e vá de John Keats

Marcelo Hessel
24.06.2010
15h59
Atualizada em
21.09.2014
13h53
Atualizada em 21.09.2014 às 13h53

Com Brilho de uma Paixão (Bright Star, 2009), a diretora neo-zelandesa Jane Campion voltou a concorrer à Palma de Ouro em Cannes, que ela havia ganho em 1993 com O Piano. Com o seu primeiro longa em seis anos - o anterior, Em Carne Viva, é de 2003 - ela também restaura a dignidade desse tipo peculiar de drama romântico, o de época britânico.

Trata-se da história real da relação do poeta John Keats (Ben Whishaw) com a bela Fanny Brawne (Abbie Cornish). Vizinhos, eles se encontram regularmente em chás, jantares e tardes ociosas. Keats começa a ser publicado, mas ainda está longe de ser reconhecido um dos grandes poetas românticos do país. Fanny faz aula de dança para se aprimorar, começa a participar de bailes de cortejo, mas ainda não encontrou um marido que lhe banque um dote.

brilho de uma paixão

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Todo o conflito central de Brilho de uma Paixão se dá - depois que os dois se apaixonam - pelo fato de Keats não ter renda fixa para propor Fanny em casamento. Campion filma a roda de flertes sem medo: há muita polidez na forma como as pessoas se dirigem umas às outras, mas há também muita insinuação.

Os tecidos finos que Fanny manipula na sua costura rotineira são uma bela alegoria desse equilíbrio delicado: cobrem de leve a pele, cada ponto de linha cuidadosamente pensado, mas é só bater um vento, um desejo, para vê-los voar. (Repare no movimento das cortinas da casa a cada oscilação da paixão dos dois.)

A esse simbolismo, a diretora adiciona os dois elementos fundamentais do romance de perdição pré-vitoriano: o texto rebuscado e o arrebatamento visual. As paisagens do interior da Inglaterra e os versos de Keats formam uma dupla potente. As escalação de Wishaw e Cornish estão em sintonia - ele mostrou em Não Estou Lá que domina o texto, ela provou com Candy ser uma especialista em paixões incorrigíveis.

Brilho de uma Paixão não revoluciona o gênero - pelo contrário, trata com respeito suas regras - mas pode ser uma porta de entrada interessante para a nova geração que o desconhece. Fãs de emocore ou de Crepúsculo, por exemplo (olha a heresia), podem se identificar com o amor que se manifesta não de um jeito abertamente carnal, mas por rimas. A paixão proibida de Keats e Fanny é, acima de tudo, uma luta para se expressar.

Aliás, a defesa que Jane Campion faz aqui da castidade é de botar Stephenie Meyer no chinelo. Em comparação com Crepúsculo, Brilho de uma Paixão não só é melhor cinema, como também melhor literatura.

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Nota do Crítico
Ótimo