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Crítica: Antes que o Mundo Acabe

Roteiro calculado amplifica um drama recorrente na produção gaúcha e na Retomada como um todo

Marcelo Hessel
13.05.2010
17h43
Atualizada em
02.11.2016
09h07
Atualizada em 02.11.2016 às 09h07

Entre Os Famosos e os Duendes da Morte e As Melhores Coisas do Mundo - os dois mais recentes de uma safra de filmes nacionais sobre a adolescência - Antes que o Mundo Acabe está mais próximo do primeiro. Não só porque são duas produções gaúchas, mas especialmente porque lidam com o assunto mais recorrente do cinema brasileiro pós-Retomada, o deslocamento.

Esse deslocamento significa não apenas movimento, transição - dos filmes de estrada de Walter Salles às histórias de inadequação de Beto Brant - mas também uma carência de pertencimento. Daniel (Pedro Tergolina), o protagonista de Antes que o Mundo Acabe, é um deslocado. Como todo adolescente, luta por achar uma identidade, mas com algums agravantes: ele não conhece pessoalmente o seu pai, um fotógrafo que viaja o mundo, e sua namorada, Mim (Bianca Menti), está a fim do melhor amigo de Daniel, Lucas (Eduardo Cardoso).

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Em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, "longe demais das capitais", a tentação da diáspora que pega personagens de diversos filmes nacionais bate mais forte. O que o roteiro coescrito por Paulo Halm, Ana Luiza Azevedo, Jorge Furtado e Giba Assis Brasil faz é potencializá-la: ao ver o trabalho de seu pai nas fotografias da Tailândia, Daniel se sente ainda menor. O que Santa Maria tem a lhe ensinar quando lá fora, no mundo, acontecem tsunamis, malárias e todo tipo de grandes temas (que Furtado sabe bem encadear com seus hipertextos à Ilha das Flores e O Homem que Copiava)?

O roteiro conjunto e a direção da estreante em longas Ana Luiza Azevedo - uma das fundadores da Casa de Cinema de Porto Alegre, ao lado de Furtado e Assis Brasil, entre outros - ameaçam cair no esquematismo com a quantidade de marcas textuais e visuais pensadas para ressaltar esses conflitos sufocantes de Daniel. Há os pássaros na gaiola, a estátua da santa dentro do andor... O paralelismo daquilo que seu pai vê no exterior (como os casamentos poliândricos) e aquilo que Daniel vivencia (uma mulher para dois amores) também periga limitar as possibilidades do filme.

Apesar dessa estrutura cheia de cálculos, Antes que o Mundo Acabe respira. No trato com os personagens há um carinho e uma honestidade que arejam o filme. Nos olhos azuis pequenos de Pedro Tergolina, uma curiosidade típica dos jovens - algo impossível de antever em laboratório de roteiro e que se registra, assim como o imprevisível das fotografias, no calor do instante.

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Nota do Crítico
Bom