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Crítica

Crítica: Ah... O Amor!

Os desencontros em aeroportos e igrejas são universais, mas os personagens são tipicamente italianos

Marcelo Hessel
14.01.2010
18h00
Atualizada em
02.11.2016
11h05
Atualizada em 02.11.2016 às 11h05

Comédias românticas são todas iguais, mas - parafraseando George Orwell - algumas são mais iguais do que as outras. Ah... O Amor!, uma espécie italiana de Simplesmente Amor, se distingue não pelo que tem a dizer sobre relacionamentos, mas sobre os italianos.

Temos, inicialmente, aquela infinidade de personagens que acham que sabem uma ou outra coisa sobre paixão. Depois de rápida apresentação, o roteiro coescrito pelo diretor Fausto Brizzi salta alguns anos para mostrar como muitos estavam errados - daí o título original, Ex.

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As subtramas se cruzam seguindo o modelo consagrado. Um juiz que está cuidando de um processo de divórcio enfrenta sua própria crise de meia-idade. Seu amigo galanteador encara a dor do falecimento da ex-mulher. A ex-esposa do juiz tem uma amiga que está para casar na paróquia cujo padre era ex-namorado da noiva. Outra, amiga de todo mundo, periga perder o namorado porque o ex dela decidiu intimidar o cara. E por aí vai.

A única subtrama que não se conecta às outras, ambientada não na Itália mas em Paris, envolve um amor jovem, à distância, e é parcialmente falada em inglês - oportunidade de incluir na trilha sonora pop italiana alguns sucessos internacionais como canções de James Blunt e Creed.

Se essa menção a James Blunt e Creed não te fez desistir, de vez, de assistir a Ah... O Amor!, então é possível que você, pessoa teimosa, atente a tudo aquilo que o filme tem a oferecer a título de subtexto. Porque embora tenha todas aquelas cenas bisonhas e universais de desencontros em aeroportos e igrejas, Ah... O Amor!, como já se sugeriu aqui, nas entrelinhas é italianíssimo.

A começar pela histrionice. Não é uma comédia física como Sexo com Amor (que por sua vez é um Simplesmente Amor brasileiro e tem muito a dizer sobre o nosso narcisismo), mas tem seus tipos ridiculamente histéricos. O melhor deles é o do ator Silvio Orlando, o juiz, que mostra que brigar com a esposa em voz alta na frente de todo mundo, por mais caricato que seja, sintetiza a maneira como os italianos transformam a arte de sofrer de paixão em uma situação operística.

Mais arraigado, porém, é o machismo. São muito doces (doces demais) todas as declarações de amor que as mulheres recebem ao longo do filme, mas não se engane: Ah... O Amor! espelha uma visão de mundo chauvinista. São os homens os mais atingidos e afligidos pelo fim de uma relação, e se uma mulher te troca por outro o problema não está em você, mas nela (como acontece na subtrama do médico e do policial). Uma mulher deu nota 10 para sua performance no diário dela? Até o padre vai contar vantagem.

Aliás, existe coisa mais machista do que imaginar que mulheres dão notas para homens em diários?

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Nota do Crítico
Ruim