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Crítica

Crítica: A Troca

Clint Eastwood volta ao tema da abdução de menores em seu filme recente mais classicista

Marcelo Hessel
08.01.2009
16h00
Atualizada em
21.09.2014
13h43
Atualizada em 21.09.2014 às 13h43

Imagino que seja um júbilo para um cineasta classicista poder dirigir um filme ambientado decadas atrás. Mais exatamente, ambientado na época em que Clint Eastwood nasceu.

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A Troca (Changeling, 2008) se baseia em um caso real ocorrido entre 1928 e 1930. Certo sábado, em Los Angeles, Christine Collins (Angelina Jolie) saiu para trabalhar e deixou seu filho Walter em casa. Na volta não o encontrou. Os dois travellings que antes mostravam o menino de longe, um na porta da escola e outro na janela de casa, enquanto a câmera se afastava sob o ponto de vista dos olhos da mãe, já prenunciavam o pior. A imagem de Walter desaparecia aos poucos para não mais voltar.

O caso ficou famoso na realidade porque o departamento de polícia de L.A. encontrou, diz, um menino homônimo ao desaparecido e presumiu que era o filho de Christine. Daí a troca do título: para ficar bem diante da imprensa, a criticada polícia da cidade se apressou em jogar o "filho" no colo da mãe. Christine, evidentemente, desde o primeiro momento apontou que aquele não era o verdadeiro Walter.

No filme, quando o oficial responde para ela "take him home on a trial basis" (algo como "leva pra casa pra experimentar"), você vê que a coisa começa a degringolar.

O parentesco imediato é com Sobre Meninos e Lobos. Ambos pegam um drama de rapto infantil para discutir transmissão de culpa. E ambos têm criação classicista à moda Eastwood - poucas tomadas, instruções práticas e econômicas aos atores, filmagens que acabam sempre antes do combinado, o que acaba rendendo momentos desiguais de performance do elenco. Em A Troca, porém, pelo próprio momento histórico, Eastwood parece realizar seu filme mais clássico em termos formais - com direito a som quebrado entre planos para dinamizar a exposição.

E eu nunca tinha atinado para o fato de que a obsessão de Eastwood pelo chiaroscuro é um resquício do filme noir dos anos 40 (que por sua vez é uma adaptação do expressionismo alemão dos anos 20). Pegue, por exemplo, a cena anti-naturalista do interrogatório do menino, com meio rosto iluminado pela tempestade, ou o ângulo com que Eastwood filma Jolie de chapéu para encobrir seus olhos. Aquela forma de esconder semblantes (no caso de Jolie, restam-lhe só os lábios para contar história) é noir puro!

Que se faça um parênteses para comentar a construção da personagem. É uma atuação cheia de cacoetes, a de Jolie, como sempre, mas são tiques propositais. Estamos falando de uma personagem bem feminina - sempre educada ao telefone e de modos leves, pela forma como toca o rosto no choro ou mesmo como pede debilmente para um bonde na rua parar - que de repente se descobre num mundo de homens. O vermelho do batom dela, contrastando com a falta de cor dos paletós masculinos, é de uma agressividade febril, como se fossem alienígenas uns aos outros - o que acentua a essência kafkiana da premissa.

Advogando por princípios

Como naquela época não havia Guerra do Iraque, hoje sempre que lhe perguntam se A Troca critica o bushismo Eastwood diz que sempre houve e ainda há corrupção. Mas é um filme nos anos 20, diz ele, e ponto final. Para quem olha de fora, porém, é legítimo enxergar ressonância com a intransigência do governo Bush. A maneira falsamente idiota como a polícia de Los Angeles acredita na sua própria mentira equivale à de quem botou tanques no deserto atrás de armas de destruição em massa.

Mas não tomemos esse caminho - mesmo porque filmes são produtos de seu tempo, há política em tudo e, afinal, essa leitura é apenas a mais imediata. Talvez seja mais caro a Eastwood vermos A Troca como uma reafirmação de valores que hoje estão em desuso na sua América. É sintomático, por exemplo, que a única personagem do filme disposta a socar alguém para vingar Christine seja a prostituta (que já está à margem da lei mesmo). Na sua busca, Christine se atém às vias legais até o final porque crê nas fundações do sistema.

E se ela, como Eastwood, acredita que a corrupção não está nas instituições, mas naqueles que as compõem, nada mais natural que dedicar todo o terço final do filme a expurgar essa corrupção. O texto do roteirista J. Michael Straczynski (conhecido dos fãs de quadrinhos pela sua passagem conturbada pelo Homem-Aranha) é implacável nesse sentido. Não há recompensa fácil, não há milagres à Frank Capra. A certa altura um personagem de má índole confessa ser um fã de Christine porque ela ousou desafiar o sistema. Mas, como Christine repete à exaustão, ela não quis desafiar nada, quis apenas o filho de volta.

Falando assim, parece um moto simplório, mas é uma questão profunda de princípio. E o cinema clássico é isso aí, em essência: motos simplórios, questões de princípio.

Nota do Crítico
Ótimo