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Crítica

Crítica: A Partida

Estreia o vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2009

Marcelo Hessel
04.06.2009
17h00
Atualizada em
21.09.2014
13h48
Atualizada em 21.09.2014 às 13h48

É chato ficar julgando filmes pelo simples fato de terem ganhado um Oscar, mas não há maneira mais direta de sintetizar o drama A Partida (Okuribito, 2008) do que dizer que é um típico vencedor da categoria Melhor Estrangeiro: uma história simplificada para ter apelo universal.

Daigo (Masahiro Motoki) é um violoncelista que perde o emprego numa orquestra de Tóquio e decide voltar para o interior, ao lado da esposa, para a cidade onde cresceu. Lá, arruma um emprego que atrai o preconceito de muita gente: Daigo é encarregado de preparar os mortos para seus funerais.

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Não é um processo químico que se pega com a prática, como no seriado A Sete Palmos. No Japão secular o trabalho de Daigo tem muito mais a ver com ritual: maquiar e vestir os corpos, diante da própria família em luto, de um jeito que os faça corados e aprumados, como em vida.

É evidente o arco que o diretor Yôjirô Takita e o roteirista Kundo Koyama querem criar para Daigo: um jovem em conflito com perdas do seu passado, um órfão que perdeu a oportunidade de velar os seus e de repente aprende a velar os dos outros. A simplificação oscarizável é justamente essa... Sabemos exatamente quem é Daigo, de onde ele vem e para onde vai, qual o tamanho do caroço no peito que o impede de chorar etc. A única pessoa que não sabe é o próprio personagem.

E aí tome plano "artístico" do músico tocando ao ar livre no pôr-do-sol... Takita chega ao cúmulo de mostrar Daigo mexendo num polvo quase morto para ilustrar que o personagem, no começo de sua jornada, talvez não tenha "dons manuais". Que o ator principal se comporte como um cômico de TV só realça essa plastificação do drama.

Não é um filme de todo desprovido de sutilezas. Ao longo de A Partida, Takita tece comentários sobre outros aspectos da rotina dos velórios - a religiosidade dos clientes em oposição ao respeito que Daigo e seu chefe têm unicamente pelo momento do rito religioso, por exemplo. Percebe-se que o diretor tem olho para as pequenas coisas, mas o peso da "grande história" as sufoca.

Se é um exame sensível do luto que o espectador procura, recomenda-se outro filme japonês contemporâneo: A Floresta dos Lamentos. É um filme já exibido em mostras que inexplicavemente permanece inédito no circuito - e que jamais levaria o Oscar.

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Nota do Crítico
Bom