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Filmes
Crítica

A Margem do Rio navega entre a poesia do fantástico e os limites do clichê

Longa de Matheus Farias e Enock Carvalho acerta na crítica social e na atmosfera fantástica, mas é contido por estereótipos batidos.

Omelete
3 min de leitura
30.10.2026, às 14H38.

Nas margens dos manguezais recifenses, acompanhamos o jovem Izaquiel (Caique Copque), um auxiliar de limpeza, que divide sua vida trabalhando em uma instituição religiosa durante o dia e se arriscando na noite em meio às sombras buscando encontros casuais secretos. Um dia, o jovem conhece Jeremias (Ítalo Martins), um pescador misterioso que vive na beira do rio e eles se envolvem em uma relação rodeada de misticismo, cumplicidade e afeto. Juntos eles se veem obrigados a enfrentar a violência que ameaça atacar a vida deles até em seus esconderijos.

A Margem do Rio, filme co-dirigido por Matheus Farias e Enock Carvalho, aborda no drama com pitadas de realismo fantástico, as vivências periféricas e queer, montando uma narrativa densa sobre pertencimento, perigo, afeto e misticismo, alternando entre sacadas extremamente precisas e escolhas narrativas não muito complexas.

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O filme retrata de forma realista e dolorosa a vivência da comunidade LGBTQIAPN+ no espaço urbano e a necessidade de se tornarem invisíveis diante da sociedade. Como uma estratégia de sobrevivência, eles estão sempre se escondendo, vivendo nas sombras e indo para as margens quando querem realizar seus desejos. As penumbras dos manguezais são um contrapondo para a experiência de Izaquiel em casa, ao lado das amigas (Renna Costa e Ísis Broken), duas mulheres trans que dividem a casa com ele. O espaço amigável, onde construíram para se acolher e aconselhar, se torna então um porto seguro daquelas personagens.

A trama se dedica a criar duras críticas às instituições religiosas e ao moralismo que atravessa a sociedade, expondo a hipocrisia de grupos que utilizam o discurso de fé não para abraçar, mas para coagir e estigmatizar. No entanto, é justamente na construção de parte do elenco e desses núcleos que o longa se apoia em escolhas que o impede de ir além. Há uma presença excessiva de estereótipos já exaustivamente explorados no cinema, como o grupo religioso retratado de maneira maniqueísta e caricatural, repetindo fórmulas batidas de fanatismo. O próprio Izaquiel, embora relevante para a trama, acaba vítima de clichês recorrentes na representação de corpos e identidades queer, perdendo a oportunidade de se aprofundar em nuances mais originais.

Onde a direção acerta é na presença de elementos fantásticos, que permeiam a figura do pescador Jeremias e o rio. O cenário que inicialmente poderia ser visto como hostil e misterioso vai se transformando em um ambiente acolhedor e vivo, até o clímax da história, com uma sequência poética e emocionante.

Com uma trajetória em festivais pelo mundo - exibido durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Festival de Locarno na Suíça, onde fez sua estreia mundial, além do Festival do Rio - A Margem do Rio se mostra um filme corajoso e potente em suas intenções e estética, mas que acaba limitado por vícios na criação de seus personagens, perdendo a oportunidade de criar algo próprio e mais impactante, fugindo de representações corriqueiras do cinema nacional.

Nota do Crítico

A Margem do Rio

A Margem do Rio

Duração: 117 min
Direção: Enock Carvalho, Matheus Farias
Elenco: Italo Martins, Caique Copque
Onde assistir:

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