A Beautiful Day in the Neighborhood

Créditos da imagem: Sony Pictures/Divulgação

Filmes

Crítica

A Beautiful Day in the Neighborhood

Filme sobre o lendário Mister Rogers encontra em Tom Hanks a única representação possível em filme sentimental e, ao mesmo tempo, verdadeiro

Natália Bridi
10.09.2019
20h41
Atualizada em
10.09.2019
21h27
Atualizada em 10.09.2019 às 21h27

Como é ser casada com um santo?”, questiona o jornalista Lloyd Vogel (Matthew Rhys). “Não gosto desse termo, é como se o que ele é fosse algo inatingível”, retruca Joanne (Maryann Plunkett), esposa do lendário apresentador infantil Mister Rogers, em A Beautiful Day in the Neighborhood, filme de Marielle Heller baseado no artigo de Tom Junod para a revista Esquire

Para quem não o conhece, a primeira reação é de estranhamento. Um homem adulto, que chega em casa entoando a canção "Won't You Be My Neighbor?”, troca o paletó por um cardigã vermelho e os sapatos por tênis e começa a falar, com a ajuda de fantoches e músicas, sobre problemas reais: morte, depressão, divórcio, raiva, guerra… Tudo se passa na “Vizinhança de Mister Rogers”, um dos programas infantis a ficar mais tempo em exibição nos EUA (perdendo apenas recentemente para Vila Sésamo). O segredo dessa longevidade, acreditava-se, estava “santidade” de Rogers. Ao investigá-lo, Junod descobre que se tratava apenas de sinceridade. Fred Rogers simplesmente se importava.

É por isso que nem o artigo da Esquire, nem A Beautiful Day in the Neighborhood tratam diretamente do apresentador. O foco é Vogel, a versão cinematográfica de Junod, e o impacto dos encontros com o Rogers na solução de problemas da sua própria vida — a relação com o pai (Chris Cooper), com a esposa (Susan Kelechi Watson) e com o seu filho recém-nascido. Como em um episódio do programa infantil, o roteiro de Micah Fitzerman-Blue e Noah Harpster apresenta Vogel como o “problema da semana”, sendo didaticamente dissecado em um mundo de miniaturas e personagens caricatos. 

É assim que o filme representa a essência de Mister Rogers, que encontra em Tom Hanks a única equiparação possível do seu carisma. Uma vez entendido o que Rogers representa, fica difícil não se emocionar com a honestidade dos seus conselhos e com a sua dificuldade para falar sobre si mesmo. Hanks é cada traço do mito em torno apresentador, ao mesmo tempo em que lhe torna humano. Mister Rogers não pode ser um santo porque é preciso acreditar que é possível ser uma boa pessoa, sem que isso seja um milagre, sem que todas as dores da vida sejam negadas. 

Para os não iniciados, talvez seja melhor conhecer Mister Rogers antes de A Beautiful Day in the Neighborhood (ao que o documentário Won't You Be My Neighbor?, de 2018, é indicado), mas o filme de Heller é mais do que um tributo a uma figura querida da cultura pop americana. Há um entendimento do que Rogers representa, ao que Hanks corresponde perfeitamente. É um programa educativo cinematograficamente imaginado, com o aprendizado de Vogel sendo também do espectador. Sentimental, sim, e verdadeiro.

Nota do Crítico
Ótimo