Filmes

Crítica

Crimes em Happytime

Muppets para adultos faz jogo interessante com o que se espera do noir

Marcelo Hessel
26.09.2018
12h20

Em desenvolvimento há dez anos dentro da Jim Henson Company, Crimes em Happytime (The Happytime Murders) é o primeiro produto da Henson Alternative, subdivisão da casa dos Muppets dedicada a conteúdo para maiores. O viés fica logo evidente quando o filme começa: o primeiro boneco em cena aparece fumando, o segundo já manda um palavrão. O longa de Brian Henson é o equivalente Muppet daquelas animações adultas da Netflix obcecadas com piadas com genitais só porque a classificação etária do streaming permite.

The Jim Henson Company/Reprodução

Na trama, bonecos e humanos convivem em conflito, numa Los Angeles em que os bonecos estofados saíram de moda e são tratados como párias sociais. Phil Phillips, o único boneco que um dia se arriscou a virar policial, hoje trabalha como detetive particular. Quando os bonecos que estrelaram a série de TV The Happytime Gang começam a ser mortos, um a um, Phil precisa se aliar à sua antiga parceira humana, a policial Connie Edwards (Melissa McCarthy), para solucionar o caso.

Henson encontra na figura de Phil um potencial de incorreção política e graça que não se esgota rápido, porque mesmo na terceira ou quarta baforada de cigarro - entre vários "fucks", trocadilhos sexuais e outras tantas piadas repetidas até o limite do esgarçamento - Phil nunca deixa de ser uma pelúcia azul fofa em movimento. Crimes em Happytime opera até o fim acreditando que essa combinação (bonecos meigos fazendo grosserias) pode sustentar o filme, e com uma variação mínima de situações até que a coisa toda se sustenta bem. De qualquer forma, ver bonecos explodindo em câmera lenta com tiros de escopeta por uma hora e meia tem seu apelo inegável.

O que Crimes em Happytime tem de mais interessante não está na superfície do conteúdo "adulto", porém. São as escolhas de ambientação que tornam esse filme diferente, porque estamos aqui diante de um noir paródico que lida com a cidade de um jeito mais frontal e menos fantasioso que outros filmes de "noir juvenil", como Roger Rabbit, ou mesmo filmes que exaltam o pedestrianismo da Los Angeles sem glamour, como La La Land. Em Crimes em Happytime, locações do Centro de L.A., ruas vazias, galpões e estacionamentos descuidados, e mesmo as penthouses com jacuzzi surgem na tela com luz natural e encenação desafetada, sem filtros.

É uma escolha instigante porque, se o noir originalmente herdava o gosto do expressionismo pelo jogo de luz e sombras, pela profundidade de campo, então Crimes em Happytime não deixa de ser uma espécie de anti-noir, esteticamente falando. Não há no filme uma preocupação específica ou latente com filtros de luz e contrastes de cor (a não ser nos momentos em que a femme fatale seduz o detetive, quando a estilização é usada com a função de sublinhar os encantos da personagem). E como os planos-médios são mais frequentes (para pegar os bonecos da cintura pra cima e omitir os marionetistas) do que os planos abertos (que exigem uma preocupação maior com a arquitetura dos espaços), Crimes em Happytime tem mais uma cara de produto de televisão mesmo, desestetizado.

Em certos momentos, essa falta de uma pretensão de autor (como aquela que quase sempre acompanha os filmes que optam conscientemente por uma filiação ao neonoir) traz um frescor inesperado. A cena da praia é um exemplo: há um corpo encontrado no pier no meio de um fim de semana cheio de banhistas. Em um filme policial "normal" os ruídos do entorno seriam sublimados para fins dramáticos. Aqui, porém, não há uma preocupação em isolar o fato (cadáver encontrado) do dia a dia de quem frequenta a praia, então o registro do filme acaba sendo muito mais próximo de um cinema verdade, nessa relação com os espaços da cidade, do que necessariamente de uma formulação de cinema de gênero. Fica a impressão de que a produção chegou com uma equipe de meia-dúzia de pessoas para filmar suas cenas sem mudar a dinâmica do local, e poucas vezes Hollywood se permite filmar seus farofeiros (os hippies e marombeiros desprovidos do glamour que se espera de L.A.) com tamanha candura.

Essas escolhas acabam fazendo de Crimes em Happytime um noir mais puro do que o próprio Henson talvez imagine, porque seu filme dá espaço a tipos sociais desprestigiados com mais generosidade do que o cinema americano de exportação de fantasias costuma se permitir. Que isso aconteça dentro de um produto associado automaticamente com o artifício do mundo de sonhos - os bonecos, os matinais da TV, o consumo infantil inocente - é uma disrupção que chama a atenção. Crimes em Happytime é o Muppets cassavetiano que não sabíamos que queríamos.

Nota do Crítico
Ótimo