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Creed - Nascido para Lutar | Crítica

Rocky passa o bastão em filme que faz com competência a mistura de remake e reboot

Marcelo Hessel
06.11.2015, às 01H52

Independente do seu eventual sucesso, se dará ou não continuidade à franquia Rocky, Creed - Nascido para Lutar (Creed, 2015) já é um bom exemplo de como fazer um misto de remake, reboot e continuação sem ofender a inteligência nem se entregar à indulgência dos fãs. Na sua releitura do filme de 1976, o roteirista e diretor Ryan Coogler parece estar mais preocupado em dar um novo sentido às velhas imagens.

A premissa é a mesma do primeiro Rocky - pugilista amador aproveita uma oportunidade irrecusável para desafiar o campeão que acredita estar diante de uma luta ganha - mas muda consideravelmente a condição do protagonista. Adonis Johnson (Michael B. Jordan, ator que despontou com Coogler em Fruitvale Station e mantém aqui seu bom padrão de atuação), o filho do finado Apollo Creed, não sobe ao ringue com uma responsabilidade coletiva, como Rocky Balboa, que carregava consigo o orgulho da classe operária branca dos imigrantes da Filadélfia, e sim com um trauma familiar, a orfandade mal resolvida.

Coogler não tenta dar a Adonis uma responsabilidade parecida com a de Rocky. O comentário social em Creed é mais tímido, menos ressonante, mas ainda assim está lá: numa época em que o boxe aparece nas manchetes mais pelo estilo ostentação de Floyd Mayweather fora do ringue, acaba sendo um ponto de partida interessante que o arco de Adonis envolva renunciar à riqueza para, acima de honrar o nome do pai, ganhar street cred com os negros da Filadélfia e provar que não é só o menino de Hollywood.

A partir dessa escolha - deixar Los Angeles, a cidade das aparências, e buscar uma legitimidade nas ruas da Costa oposta dos EUA - Coogler vai fazendo um filme que procura o tempo inteiro passar ao espectador essa sensação de que agora, sim, Adonis está em contato com o mundo "real". O diretor filma objetos em planos-detalhes com obsessão, desde o tradicional sanduíche philly steak da cidade até as imagens do saco de gelo e do gel à beira do ringue. Essa tentativa de tornar tudo mais urgente e de registrar as coisas "de verdade" se estende aos planos-sequências, vários ao longo do filme.

O mais bem sucedido é o da segunda luta de Adonis: dois assaltos encenados num único plano. A câmera fica rodeando os lutadores, vai e vem em close-ups para efeito dramático, e aproveita quando está às costas dos atores para pegar os golpes - assim não conseguimos ver se a luva passa longe do rosto. O truque funciona, e nessa cena Coogler tem uma boa noção de construção de suspense, como quando a câmera, depois de rodear os atores, volta ao rosto de Adonis para mostrar o supercílio que acaba de abrir.

Essa busca por uma autenticidade no registro, que toma dois terços de Creed, é o que permite ao filme se jogar no fan service no final. Daí, o destaque vai para a nova versão da cena da escadaria, em que Adonis - com o mesmo agasalho cinza de Rocky, o mesmo gorro, o mesmo gestual, até nos braços pra cima - é acompanhado pelos negros do gueto no pique até o fim da rua. Percebe-se que Creed, além de construir um imaginário da cidade para si, procura balizar esses easter eggs num novo contexto, para validá-los, e não simplesmente contentar os nostálgicos.

Que função tem então Sylvester Stallone nesse novo cenário? Seu Rocky agora se parece mais com o velho Mickey, não apenas por substitui-lo como a obrigatória figura paterna do treinador à margem do ringue, mas principalmente pelo caráter cômico da diferença de idade entre ele e Adonis. O filme joga bem com isso, e embora Stallone saiba apertar os botões certos do seu público na hora do melodrama, é no humor que ele se sai melhor. Que aposentadoria perfeita para o Garanhão Italiano: de bom humor, finalmente consciente de que chegou a vez da nova geração.

Creed - Nascido para Lutar chega aos cinemas dos EUA em 25 de novembro e estreia no Brasil em 18 de fevereiro.

Creed: Nascido para Lutar
Creed
Creed: Nascido para Lutar
Creed

Autor: Ryan Coogler e Aaron Covington

Ano: 2015

País: EUA

Classificação: LIVRE

Duração: 132 minutos min

Direção: Ryan Coogler

Roteiro: Ryan Coogler

Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Graham McTavish, Tessa Thompson, Phylicia Rashād, Hans Marrero, Will Blagrove, Tessa Thompson, Tony Bellew, Ritchie Coster, Jacob 'Stitch' Duran, Malik Bazille, Wood Harris, Gabe Rosado

Nota do Crítico
Ótimo

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