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Crítica

Cowboys & Aliens | Crítica

Promessa de mistura de gêneros de Jon Favreau se perde em um filme sem alma

Érico Borgo
08.09.2011
19h00
Atualizada em
29.06.2018
02h35
Atualizada em 29.06.2018 às 02h35

Em entrevista ao Omelete, Jon Favreau explicou como Hollywood está cada vez mais focada em realizar filmes com apelo amplo, para minimizar os riscos dos investimentos em seus grandes filmes. Ninguém poderia ter explicado tão bem a principal razão de Cowboys & Aliens ser tão insosso.

Cowboys & Aliens

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Apostar na massificação às vezes dá certo, mas se serão empregados arcos narrativos sem surpresas, já devidamente comprovados como garantia de lucro, que ao menos o filme busque a excelência em todos os outros aspectos e procure introduzir alguma novidade.

Como os estilos e temas do western já ganharam as estrelas mais de uma vez, a novidade em Cowboys & Aliens é trazer os alienígenas ao Velho Oeste.

O filme começa muito bem. Os primeiros 30 minutos, que funcionam como um Western de raiz, apresentando os arquétipos que vão mais tarde deparar-se com a inusitada ameaça do espaço, prenunciavam uma aventura dramaticamente relevante. Acompanha-se aí o "herói solitário", Jake Lonergan (Daniel Craig), despertando amnésico no deserto. Em seu pulso um bracelete metálico, no chão ao seu lado, semi-enterrada na areia, a foto de uma mulher. Ele está vestindo apenas roupas de baixo até que, depois de um breve encontro com três pistoleiros mal-intencionados, já tem roupas, armas e um propósito.

O arco clássico do faroeste - especialmente o revisionista - continua, enquanto Jake conhece outros personagens saídos dos templates do gênero, incluindo a mocinha destemida (Olivia Wilde) e o rancheiro inescrupuloso (Harrison Ford). Nesse primeiro ato constrói-se o panorama perfeito para a ação, mas quando entram em cena os alienígenas, o filme desvia-se da utilização inteligente de fórmulas de gênero para um pastiche de ficção científica sem alma.

Jon Favreau tinha em suas mãos um orçamento polpudo, a direção de fotografia (belíssima) de Matthew Libatique e um elenco dos sonhos, composto, além de Craig, Wilde e Ford, pelos excelentes Paul Dano, Walton Goggins, Clancy Brown e Sam Rockwell. O diretor parece feliz demais em ter esse playground de astros e dinheiro para efetivamente contestar o roteiro medíocre que recebeu, realizado a 12 mãos (!) pelo comitê mais supervalorizado de Hollywood no momento: Roberto Orci, Alex Kurtzman, Damon Lindelof, Mark Fergus, Hawk Ostby e Steve Oedekerk, que trabalharam a partir da terrível história em quadrinhos de Scott Mitchell Rosenberg.

Com tantos cozinheiros mexendo o guisado, a história aponta para uma direção, esquece de onde estava vindo e termina sem responder os mistérios mais interessantes criados (cortesia de Damon "Lost" Lindelof?). Os próprios eventos do filme espelham essa confusão. O grupo de justiceiros em determinado momento está seguindo um alien ferido. No caminho chegam índios - e aí decide-se que o mais fácil é curar a amnésia de Jake com um ritual xamânico para que eles encontrem a base alien. Mas e a criatura ferida? Não seria muito mais tranquilo continuar a seguir o rastro de sangue? Os personagens, que haviam sido tão decentemente apresentados, também padecem desse mesmo mal, mudando de personalidade conforme a trama avança, sendo a desnecessária redenção do rancheiro a pior delas.

Mesmo o que poderia salvar o filme, a ação, tem grandes falhas. Há uma atmosfera morosa durante o filme todo (que alguns integrantes do elenco parecem aceitar passivamente - onde está a surpresa ao saber que aliens existem?) que mesmo as sequências de combate não conseguem tirar. Há alguns bons momentos aqui e ali (o design das naves com seus ganchos, o navio invertido, a luta em Absolution), mas a grande batalha do clímax implode em suas pretensões de ter uma complexa ação em três frentes. Nela, o filme estabelece especialmente mal as escalas, com o número de participantes parecendo variar a cada enquadramento e as distâncias sempre mal-resolvidas, como a cena de Olivia Wilde na nave-mãe. O fato dos monstros/aliens serem apresentados como quase indestrutíveis e depois pareceram mais frágeis, quando convém ao roteiro, também é extremamente decepcionante (especialmente porque o texto estabelece uma possível fraqueza minutos antes, a visão, que não é sequer mencionada a seguir, com os aliens enxergando muito bem).

Buscar a segurança em seus investimentos é algo positivo, mas filmes como Cowboys & Aliens, provam que, sem ousadia e trabalhando no automático, não existe renda fixa que chegue quando o assunto é o cinema e a percepção do público de seus produtos.

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Cowboys & Aliens | Cinemas e horários

Cowboys & Aliens
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Cowboys & Aliens

Ano: 2011

País: EUA

Classificação: 12 anos

Duração: 118 min

Direção: Jon Favreau

Elenco: Olivia Wilde, Harrison Ford, Daniel Craig, Sam Rockwell, Paul Dano, Walton Goggins, Ana de la Reguera, Clancy Brown, Keith Carradine, Noah Ringer, David O'Hara, Adam Beach, Abigail Spencer, Toby Huss, Raoul Trujillo, David Midthunder, Matthew Taylor, Brian Duffy, Brendan Wayne, Gavin Grazer, Wyatt Russell

Nota do Crítico
Regular

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