Vicky Krieps em Corsage (Reprodução)

Créditos da imagem: Vicky Krieps em Corsage (Reprodução)

Filmes

Crítica

Corsage transborda fúria e estilo, mas fica devendo substância

Vicky Krieps é a idolatrada imperatriz Sissi nessa ficcionalização ousada de sua história

Omelete
3 min de leitura
20.01.2023, às 11H52

Nada em Corsage fascina - ou, de fato, expressa - mais do que o seu design de produção. O trabalho de Martin Reiter, guiado pelo espírito anárquico e temperamental da diretora e roteirista Marie Kreutzer, subverte o esperado dos dramas de época e troca suntuosidade por economia, deixando expostas as rachaduras das paredes dos castelos maltratados pelo tempo e abandonados por seus nobres moradores, anacronismos à plena vista do público, a mobília escassa evidenciando a fragilidade dos rituais que se desenrolam nos ambientes da aristocracia. 

Há algo de eloquentemente subversivo nas decisões de cenografia, e é justamente essa eloquência que, por todas as qualidades de Corsage, fica faltando no restante do filme. Kreutzer certamente tem um ponto de vista forte: ao recontar a história da Imperatriz Elisabeth da Áustria, vulgo Sissi (Vicky Krieps), figura do século XIX até hoje idolatrada no país, o longa expõe inclementemente que todos os aspectos exaltados de sua feminilidade (os cabelos longuíssimos, a cintura finíssima, a obsessão com a juventude e as boas maneiras) são na verdade as próprias amarras que a levaram à doença e reclusão no fim do reinado.

Kreutzer faz seu ponto abusando das liberdades históricas, o que rima bem com as escolhas anacrônicas que compõem o estilo do filme - não só na direção de arte, mas também na trilha sonora (em um momento, o clássico “As Tears Go By”, de Marianne Faithful, ganha versão tocada na harpa) e na encenação, cheia de gestos, maneirismos e expressões flagrantemente contemporâneas. Não é o anacronismo pop feminista reabilitador de um Maria Antonieta (2006), no entanto, mas um divórcio deliberado da narrativa histórica dominante para moldá-la e examiná-la a partir de um ângulo movido pela fúria esclarecida de quem entende os aparatos de opressão que só mudaram de nome com o passar dos séculos.

Em sua defesa, portanto, Corsage sabe muito bem o que é, e também sabe muito bem como sê-lo - basta olhar para a performance de Vicky Krieps no papel central, construída toda em uma expressão de revolta dolorosamente física. Sua Sissi se revela nas posturas rígidas que assume quando se aproxima de figuras masculinas da corte, do marido ao primo, passando pelo professor de equitação e o pintor que compõe o seu retrato; nos passos largos e famintos com os quais sobe as escadas do palácio acompanhada de sua entourage de criadas e confidentes, que vivem uma vida tão restritiva quanto a dela; nos ombros desconfortavelmente encurvados que trazem à tona o que há por trás do seu silêncio pétreo durante os eventos oficiais da realeza.

Há pouca ou nenhuma catarse na vida de Sissi, mas Krieps consegue cavar espaços onde o estresse acumulado, transformado em uma melancolia latente, se torna nervosamente óbvio na tela. Não à toa, a diretora de fotografia Judith Kaufmann só acha composições e ideias interessantes quando está observando as colocações engenhosas do corpo da atriz em cena, seja cobrindo o seu rosto em momentos de intimidade ou assumindo a postura de uma flor murcha em uma cena especialmente evocativa. Nessas e outras passagens, Corsage chega muito perto de tocar a concretude emocional da sua narrativa de isolação e incompreensão.

O problema é que esses momentos de realização estética são passageiros, e, textualmente, o filme não consegue elaborar as próprias ideias com a mesma profundidade. A estrutura do roteiro de Kreutzer é nula - no começo, parece uma recontagem episódica de eventos da vida da imperatriz; depois, tenta rimas narrativas fracas, que pouco convencem e nada dizem; por fim, nos atira uma reviravolta claramente improvisada diante da urgência de dar finalidade à história. Não se trata nem de ter más ideias, mas de ignorar a diligência necessária para que as boas ideias funcionem.

No fim das quase duas horas de Corsage, fica na memória a beleza austera e a fúria justificada de um filme que, infelizmente, vive em desencontro consigo mesmo.

Nota do Crítico
Bom
Corsage
Corsage
Corsage
Corsage

Ano: 2022

País: Áustria/Luxemburgo/Alemanha/França

Duração: 114 min

Direção: Marie Kreutzer

Roteiro: Marie Kreutzer

Elenco: Colin Morgan, Vicky Krieps

Onde assistir:
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