Confissões de uma Garota Excluída

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Filmes

Crítica

Confissões de uma Garota Excluída flutua entre autoaceitação e velhos conceitos

Rivalidade feminina e empoderamento marcam adaptação de Thalita Rebouças para a Netflix

Júlia Tibiriçá
20.09.2021
17h00

Confissões de uma Garota Excluída, adaptação em longa-metragem do livro de Thalita Rebouças que chega esta semana na Netflix, vem carregado de mensagens de autoaceitação. Focando na coragem de uma adolescente que decide superar seus medos e se abrir para a vida no colégio, o filme acompanha sua jornada sem desviar de trancos, barrancos e constrangimentos pelo caminho. 

Quem define o tom é a narração auto-irônica e bem humorada de Tetê (Klara Castanho) sobre sua relação desconfortável - para dizer o mínimo - com seus colegas, sua família e consigo mesma. Traduzindo sua dificuldade em fazer amigos e suas percepções singulares e altamente imaginativas de seu cotidiano de crushes não correspondidos, a voz de Tetê nos guia por toda sua insegurança, bullying e muita transpiração indesejada (quem nunca?). O contexto não é qualquer um: somos apresentados à protagonista em um conturbado momento de chegada a uma nova escola, motivada pelo desemprego de seu pai e pela mudança da família para a casa de seus avós. Aqui, claro, há uma coleção de parentes sempre dispostos a jogar no ventilador todos os inconvenientes gatilhos de sua ansiedade social.

Apesar do compreensível pavor que a persegue ao longo da descoberta dos desconhecidos corredores da escola, Tetê está decidida a mudar e, finalmente, fazer amigos. Como era de se esperar, seu projeto de encarar a nova vida de coração aberto entra na previsível colisão com a personagem da popular Valentina (Júlia Gomes), a mean girl de Copacabana, e sua melhor amiga Laís (Fernanda Concon), que, embora cumpra um papel de ponderação diplomática aos abusos de Valentina, parece fazer a sua parte para a manutenção do status quo do ecossistema colegial. 

Nem tudo estará perdido quando Tetê se aproxima dos outros dois excluídos da turma, Davi (Gabriel Lima) e Zeca (Marcus Bessa), que se tornam importantes aliados em sua trajetória. É claro que, como era de se esperar, fazem parte da transformação da protagonista alguns (des)encontros românticos, mas - para variar, e ainda bem - os mocinhos entram em segundo plano no longa, que privilegia a importância da amizade. 

A narração de Tetê aproveita recursos típicos das redes sociais para memes e frases de efeito sem exagero e sem medo da vergonha alheia inevitável que toma conta do espectador durante todos os cômicos imprevistos e embaraços de sua história. Confissões é um filme de sua época, e tem orgulho de ser, prometendo assim encantar com leveza seu público alvo - o que não impede os já-quase-ancestrais millennials de encontrar nas entrelinhas da trama as heranças de nossas romcoms teens favoritas, tal como uma simpática e nostálgica identificação com as desventuras, reais ou imaginárias, da protagonista.

É verdade que há um esforço visível de diálogo com a pauta inescapável da resistência aos padrões impostos às mulheres e meninas sobre seus corpos, suas personalidades e suas relações. Apesar disso, há momentos que não conseguem fugir do questionamento: teria Tetê cedido às pressões de sua família, amigos e colegas para se adequar ao que era esperado dela? Em parte, parece que sim. Pelo menos aqui, somos poupados da clássica sequência de makeover que há décadas tem pretendido converter personagens supostamente inoportunas em versões de si mesmas mais palatáveis ao machismo, capaz de se infiltrar até mesmo em importantes mensagens de empoderamento e autoestima.

Ainda assim, não se pode negar que, ao lado da amizade, o empoderamento é o tema que percorre toda a trama. Tetê aprende a se compreender, se comunicar e se respeitar no processo de descoberta de suas novas amizades e de confronto com sua família. 

Uma segunda ressalva pode ser feita, ainda, a respeito do recado que fica sobre a superação de rivalidades femininas, por vezes ambíguo e insuficiente. Na medida em que a grande antagonista Valentina vem para renovar um clima démodé de competição cruel - que não é problematizado tanto quanto poderia ter sido - Confissões de uma Garota Excluída deixa de explorar de fato a potência da sororidade e do apoio mútuo entre meninas e mulheres no enfrentamento das ansiedades típicas dos momentos de transição para a vida adulta.

O saldo é positivo e inesperado, com um desenlace que garante surpresa aos recém apresentados à obra deThalita Rebouças - que aqui assina o roteiro adaptado de seu próprio livro.Para quem decidir se entregar às confissões dramáticas da protagonista, livre de julgamentos, sem dúvida perceberá que, de um jeito ou de outro, todes já fomos Tetê. 

Confissões de uma Garota Excluída
Confissões de uma Garota Excluída

Ano: 2021

País: Brasil

Direção: Bruno Garotti

Roteiro: Thalita Rebouças

Elenco: Stepan Nercessian, Júlia Rabello, Klara Castanho, Fernanda Concon

Nota do Crítico
Bom

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