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Crítica

Conan - O Bárbaro | Crítica

Cimério retorna às telas em produção genérica

Érico Borgo
15.08.2011
15h00
Atualizada em
29.06.2018
02h35
Atualizada em 29.06.2018 às 02h35

Conan - O Bárbaro (Conan - The Barbarian, 2011), apesar do título idêntico ao do filme de 1982 estrelado por Arnold Schwarzenegger, não é um remake, mas uma abordagem distinta ao clássico da literatura pulp criado por Robert E. Howard em 1932.

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A trama de ambas as produções cinematográficas começa parecida. O jovem Conan sobrevive ao massacre de seu povo por um conquistador e cresce em busca de vingança. Aqui o alvo dessa jornada é Khalar Zim (Stephen Lang), vilão que busca reunir todas as partes de uma máscara ancestral para reviver sua esposa, uma feiticeira poderosa, e juntos dominarem o mundo.

O longa de Marcus Nispel, roteirizado por Thomas Dean Donnelly e Joshua Oppenheimer (Dylan Dog), de certa maneira, é até mais fiel ao material original que o longa-metragem dirigido por John Milius. O personagem no novo filme não é o bárbaro monossilábico que o cinema nos apresentou na pele de Schwarzenegger, mas um guerreiro astuto e cheio de recursos, muito mais próximo do ladrão hábil que E. Howard imaginou.

Jason Momoa (Game of Thrones), o novo cimério, por esse ângulo, faz um trabalho razoável. Luta bem e tem a mistura certa de carisma e brutalidade. Definitivamente, o problema do filme não é seu protagonista - ainda que o elenco de apoio deixa a desejar, especialmente Lang, repetindo a pose de vilão de Avatar; Rose McGowan (exagerada como a filha feiticeira de Zim, Marique) e a fraquíssima Rachel Nichols (a sacerdotisa Tamara), que mais uma vez prova sua inépcia.

Porém, enquanto o filme original tinha o talento de Milius, que efetivamente entende o cinema e seus recursos, entregando sequências memoráveis - como a do bela elipse do crescimento do menino-escravo Conan na roda da moenda ou o ataque misterioso do início do filme -, o novo longa busca desesperadamente adequar-se à ideia do cinema de "espada e feitiçaria" que corre hoje em Hollywood.

As soluções do roteiro (do pior tipo "basta adicionar água") são tão óbvias que dá para compará-lo mais à paródia Your Highness. Os dois filmes dividem o mesmo vilão caricatural cheio de asseclas descartáveis e estilosos, a busca como fases de um videogame (a trama não avança pelos personagens, mas por desafios liderados por "chefes") e até a ação (compare a cena da perseguição da carroça).

Não é possível ignorar também a ideia recorrente nos filmes escritos por Donnelly e Oppenheimer de que em todas as sequências de luta o herói precisa proteger alguém enquanto enfrenta simultaneamente seu oponente. Há sempre essa divisão de foco, como que para ilustrar as qualidades do personagem, fiel aos amigos e feroz contra os antagonistas. Junte a isso os combates a la Piratas do Caribe, em que além de tudo o equilíbrio em algum elemento do cenário é necessário, e você começa a perceber como o gênero tornou-se algo que pode ser rapidamente adequado a todos os públicos, variando apenas a quantidade de sangue e os palavrões em cena.

Sangue, pelo menos, não falta no novo Conan. Ele jorra de ferimentos e a cada golpe aos baldes. Mas não adianta pintar a tela de vermelho se o impacto de cada golpe - físico e emocional - não é sentido. Reveja o primeiro Conan e perceba quão exíguo é o sangue naquele filme. É no corpo-a-corpo do protagonista contra seu primeiro oponente, que é quebrado aos poucos, que se sente a luta do personagem pela vida, sua transformação de menino a gladiador implacável. Enquanto isso, no Conan de 2011 o jovem aparece como um pequeno selvagem, enfrentando sozinho quatro guerreiros e matando-os em segundos cheio de malabarismos bonitos que, na prática, não passariam de um desperdício de energia. Fica claro que a brutalidade não está nos gráficos, mas nos detalhes narrativos.

Mas se o filme fracassa no campo das "espadas", a situação só piora no quesito "feitiçaria". A existência da magia no universo de Conan e os poderes de Marique são jogados na cara do público sem aviso. É claro que qualquer fã sabe que a era hiboriana é permeada por feiticeiros e criaturas, mas dentro do universo do filme não há qualquer preparação desse aspecto, algo que a cena na cabana da bruxa demoníaca introduziu tão bem no longa de 1982. O novo Conan vai de 0 a 100 nesse sentido, com Marique lançando seus demônios da areia subitamente... apenas em prol de uma cena de luta diferente (e terrívelmente mal executada).

Nispel, que no passado demonstrou estilo e conhecimento do cinema de gênero, realiza aqui seu pior filme. Reduz Conan a um Piratas do Caribe sisudo e sangrento, sem qualidade narrativa ou estética. Não passa de golpe de marketing trazer à mente Frank Frazetta nos belos cartazes e divulgar fotos tratadas com instigantes filtros hiper-realistas se isso não reflete o conteúdo da produção. E se o original tinha a brilhante trilha sonora de Basil Poledouris, cheia de fúria retumbante, a composição de Tyler Bates parece mais interessada em emular games como God of War e não soa nada original.

Não há desculpa para ressuscitar Conan no cinema para fazê-lo como qualquer outro produto de verão. Se o bárbaro cimério sobreviveu 80 anos não foi por adequar-se aos tempos e ao Excell dos produtores, mas por manter sua inabalável fé na satisfação em "esmagar seus inimigos, vê-los caídos diante de seus olhos e ouvir os lamentos de suas mulheres". Que essa motivação honesta ao menos sirva de lição para o que Hollywood precisa reencontrar em suas produções de gênero.

Conan - O Bárbaro estreia no Brasil em 16 de setembro. Esta crítica foi escrita com base no filme em 2-D. Não vimos o resultado da conversão para o 3-D estereoscópico.

Conan, o Bárbaro (2011)
Conan the Barbarian
Conan, o Bárbaro (2011)
Conan the Barbarian

Autor: Marcus Nispel

Ano: 2011

País: EUA

Classificação: 16 anos

Duração: 115 minutos min

Direção: Marcus Nispel

Elenco: Jason Momoa, Rose McGowan, Rachel Nichols, Ron Perlman, Stephen Lang, Saïd Taghmaoui, Leo Howard, Steve O'Donnell, Raad Rawi, Nonso Anozie, Bob Sapp, Milton Welsh, Bashar Rahal, Diana Lyubenova

Nota do Crítico
Ruim

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