Colony | Diretor de Invasão Zumbi volta aos mortos vivos com filme empolgante
Dirigido por Yeon Sang-ho, filme estreou no Festival de Cannes 2026
Retorno de Yeon Sang-ho ao cinema de zumbis depois do fenômeno Invasão Zumbi (Train to Busan, 2016), e da esquecida (com boa razão) continuação Península (2020), Colony oferece desafios particulares para o cineasta. Este é, afinal, um campo explorado a fundo por artistas de todo o tipo desde que George A. Romero lançou seus clássicos sobre mortos-vivos, mas no caso do cineasta sul-coreano – que desde Busan não emplaca um grande trabalho – há sempre o risco de fazer algo que parece apenas um repeteco do auge de sua carreira.
Não vamos mentir: há momentos e conceitos iterativos em Colony. Se antes tínhamos os protagonistas presos com os infectados dentro de um trem, agora um grande edifício comercial – onde há desde lojas e restaurantes até salões de conferências e escritórios – serve como campo de batalha. Há, novamente, um grupo variado de personagens que inclui pessoas de todas as idades e, claro, algumas mortes melodramáticas que visam arrancar lágrimas do espectador. Por outro lado, Sang-ho parece renovado em sua criatividade quando se trata de imaginar novos comportamentos e novas dinâmicas para os zumbis do filme, que aqui surgem de um vírus criado por Seo Young-cheol (Koo Kyo-hwan), um brilhante, mas desequilibrado, cientista que quer unir a humanidade em um só propósito. Antes empregado de uma empresa de pesquisa biológica que estuda em fungos e animais o conceito de troca de informação através de algo parecido uma mente compartilhada, ele aproveita um evento organizado por seu antigo CEO para dar início a essa empreitada.
Depois que a primeira pessoa é infectada, não demora muito para o patógeno se espalhar. Os zumbis que ele cria são rápidos, mas a princípio só sabem andar como animais de quatro patas e não conseguem distinguir humanos de manequins, por exemplo. Então, todos eles param numa pose como de quem está gritando com raiva e, através de uma rede invisível criada pelos microrganismos em seus corpos, eles passam pelo que um ex-colega de Young-cheol descreve como um “upgrade.” Um deles aprende algo e logo esse conhecimento se espalha. Os zumbis ficam em pés, e sua percepção é aprimorada.
O grupo de sobreviventes liderados pela professora de biologia Kwon Se-jeong (Gianna Jun), então, dificilmente pode usar o mesmo truque duas vezes para se safar de ataques cada vez mais organizados por uma horda cada vez mais inteligente. Ver como essa colônia se transforma é o principal motor do filme de Sang-ho, que assina ao lado de Choi Gyu-seok um roteiro que, apesar de ter semelhanças com muitas outras histórias do tipo (The Last of Us imediatamente virá à mente em algumas situações) encontra maneiras inéditas de trabalhar este gênero. Não entraremos em detalhes, mas as reviravoltas que surgem com a evolução dos zumbis não só são realmente inesperadas, como fazem um bom trabalho de deixar a situação dos protagonistas mais arriscada sem perder uma linha lógica.
Isso se dá porque o diretor consegue estabelecer uma coleção clara de regras. É claro que o prazer de assistir a Colony vem em boa parte de ver como ele consegue burlar e desafiar essas normas, tirando tanto o público quanto os personagens da sua zona de conforto sem abandonar as propostas iniciais do longa.
E, no geral, ele sucede. Cortando caminho aqui e ali, mas consegue. Do começo ao fim, Colony estabelece um ritmo cheio de propulsão, sempre empurrando sua tensão para a frente. Isso, por outro lado, gera desafios de cunho emocional que Sang-ho nem sempre se mostra à altura. Se zumbis frequentemente são usados como analogia para algo, aqui eles representam uma crítica ao individualismo e egocentrismo que assolam a raça humana. Para enfatizar isso, o diretor força algumas figuras como o policial de Lee Jung-ok ou o segurança de Ji Chang-wook a tomarem medidas que, apesar de pautadas em alguma razão pessoal, surgem como conveniências para ajudar Colony a transmitir sua mensagem.
Apesar disso, o sucesso do longa em imaginar visualmente, uma vez após a outra, as mudanças dos infectados e como eles se tornam incrementalmente mais letais retém força o suficiente para que qualquer tropeço desses logo seja esquecido. Ver como Colony descobre novas ideias, ainda que estéticas, dentro de um tipo de cinema onde tantos filmes já foram feitos gera uma curiosidade irresistível.
Crítica escrita em 16 de maio no Festival de Cannes. Colony estreia em breve no Brasil.
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