Club Kid, estreia diretorial de Jordan Firstman, é irresistível filme sobre pais e filhos
Comédia dramática pulsa com a textura de uma comunidade real
Créditos da imagem: A24
Não há nada fundamentalmente inédito em Club Kid, a elogiada estreia diretorial de Jordan Firstman. Se formos comparar o filme da A24 a outras narrativas de pais que descobrem um filho perdido, até mesmo se fecharmos ainda mais o escopo e tratarmos de comédias dramáticas, a trama ainda reside em um lugar comum. Club Kid entrega, basicamente, o que você espera desse tipo de coisa. O pai amadurece tanto quanto (ou até mais que) o filho, as tensões iniciais dão lugar a um relacionamento irresistível e assim vai. Digo tudo isso, porém, não para desmerecer os feitos de Firstman, mas justamente para exaltá-lo.
Apesar de seguir caminhos tão conhecidos – com exceção de um terceiro ato inesperado e devastador – e operar dentro de dinâmicas já familiares, Club Kid é um ótimo filme, primeiro porque faz cada um desses movimentos com muita precisão, carisma, humor e emoção; e segundo, e mais importante, porque o mundo e as pessoas que dão cor e textura a essa forma pulsam com especificidade e vida de tal maneira que é fácil topar embarcar na jornada com eles. Situado na Nova York atual, o filme tem como ponto principal de virada o momento em que Peter (Firstman) – um homem gay, divertido, viciado e, junto da amiga Sarah, dono de uma balada de sucesso – descobre que sua única relação sexual com uma mulher, 10 anos antes, gerou um filho: Arlo (Reggie Absolom). Praticamente toda figura que circula essa dupla improvável seria digna e capaz de segurar um filme próprio, mas em Club Kid, não há ninguém como eles.
Quando eles se conhecem, ambos estão na pior fase de suas vidas. Peter acaba de ser cortado da boate por Sophie (Cara Delevigne, longe de ser ótima, mas perfeitamente escalada) e atinge o fundo do poço do seu vício em drogas logo quando chega em casa para se deparar com Arlo, que chega em Nova York trazido por uma amiga da mãe, que tirou a própria vida. Quer Peter e Arlo saibam ou não, o momento em que eles trocam olhares é, também, o momento em que eles precisam entender que nenhum deles têm mais ninguém.
O sucesso da narrativa que se desenrola a partir desse encontro reside, essencialmente, em duas coisas. Precisamos começar pelo controle de tom de Firstman. Se você não soubesse que esse é seu primeiro longa-metragem, nunca imaginaria que esse não é um mestre em reger o clima de uma cena e sequência; Club Kid flutua com tranquilidade entre o dramático e o hilário, rindo de seus personagens e com eles, mas nunca jogando pra baixo os vários grupos de minoria que tomam seu holofote. De DJs trans a homens negros e acima do peso; todos geram risadas e comoção sem jamais serem reduzidos a intrumentos para conquistar essas duas coisas. Mais de uma sequência em Club Kid começa deixando sua garganta apertada e termina soltando esse nó em gargalhadas, e nunca deixa de ser impressionante a aparente facilidade de Firstman em navegar de um modo para o outro.
Então, há uma quantidade palpável de credibilidade que ele insere em cada aspecto de sua Nova York. O mundo das baladas queer, drogas pesadas e música eletrônica que serve de moldura para Club Kid é pintado pelo filme da maneira que só pessoas com conhecimento do mesmo poderiam fazer. Firstman, claramente, sabe do que está falando, e traz atores não profissionais para enfatizar essa qualidade. Do trabalho de locação preciso à fotografia, que transborda com o tipo de paixão cinematográfica por Nova York frequentemente associada a veteranos como Scorsese e Woody Allen; tudo ajuda Club Kid a escapar dos clichês com os quais ele topa dançar.
Nenhum desses é maior que o coração do filme: Peter e Arlo. Sim, praticamente tudo o que acontece com eles é esperado, mas nada disso muda o fato de que, graças ao sucesso artístico da direção e do roteiro de Firstman, estar com eles é sempre, sempre, uma coisa boa. Eu não diria que nem Firstman nem Absolom entregam atuações dignas de muito louvor, mas os dois trazem o melhor um do outro, e gera-se uma química pra lá de eficaz. O tipo de coisa que, claro, é eventualmente usada contra nós quando Club Kid quebra de vez nosso sorriso.
Essa dose dura de realidade funciona de maneira curiosa no filme. Aqui e ali, Club Kid levanta um elemento na vida de Arlo e Peter que, numa produção inferior, seria usada como ferramenta dramática para um terceiro ato que nos traz de volta ao chão. Há os surtos de raiva de Arlo, ou a decisão pouco ética de Peter de começar um namoro com o psicólogo de seu filho (Diego Calva). São pontas soltas que Firstman usa como iscas, nos distraindo para enfim nos atingir por uma direção surpreendente. É manipulação, claro, mas do melhor tipo.
Como tudo no filme, essa jogada não só é perdoada, como é aceita. Topamos tudo, porque Firstman sabe executar cada virada com excelência.
Club Kid foi exibido no Festival do Rio e no Janela Internacional de Cinema de Recife, onde assistimos ao filme. Ele estreia no Brasil em 4 de fevereiro de 2027 com distribuição da California Filmes.
Club Kid
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