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Crítica

Círculo de Fogo - A Revolta | Crítica

Continuação reduz o original ao que ele tem de familiar, mas superestima o valor da franquia

Marcelo Hessel
21.03.2018
19h09
Atualizada em
24.03.2018
00h01
Atualizada em 24.03.2018 às 00h01

Assim como a Rey de Star Wars, Amara (Cailee Spaeny), uma das protagonistas de Círculo de Fogo: A Revolta, se apresenta não apenas como a jovem representante do seu público-alvo dentro do filme como também coloca-se na função do intérprete fanboy - o personagem-símbolo dos nossos tempos, criado com um pensamento de mercado para tratar o colecionismo como pré-requisito da fruição de um filme nerd. Acontece - antes de mais nada - que Círculo de Fogo não é Star Wars; não há uma mitologia intrincada a atualizar, uma lacuna de gerações a preencher.

Então se o segundo Pacific Rim já tinha desde o princípio da sua produção uma cara de versão derivativa do longa dirigido por Guillermo Del Toro, isso acaba se consumando, dentro da trama, na própria relação que A Revolta estabelece com seu predecessor. Amara sabe de cor os nomes dos Jaegers (que os personagens intitulam obsessivamente, até depois de encarar um novo vilão, porque afinal não há maniqueísmo na hora de vender boneco), assim como John Boyega se recusa a repetir os discursos do seu pai (vivido por Idris Elba no primeiro filme) e tenta de tudo para se autoironizar nas suas falas.

Amara, então, é a devota de Pacific Rim, e Boyega faz o "hater" de Pacific Rim, e é nessa dinâmica bastante magra de reverência ao primeiro filme que o trabalho do diretor Steven DeKnight tenta se sustentar, enquanto amplifica os tamanhos dos Kaijus e a variedade dos Jaegers, replica conceitos científicos criados por Del Toro e joga aqui e ali os temas do momento (como guerra feita à distância com drones). Nome saído da televisão, DeKnight não dá ao filme as texturas e a escala que Del Toro impôs ao seu filme (faz bastante diferença o senso espacial e a velocidade dos robôs mais robustos), mas também não faz feio na computação gráfica e no escopo de pretensões épicas.

O novo Círculo de Fogo faz o beabá do supersentai com competência, sem fugir do tom de filme B despretensioso com humor autorreferencial. A sessão pode até ser bastante prazerosa se o espectador estiver disposto a ignorar todas as reduções que generalizam situações, tipos e conceitos vistos no primeiro longa. Os personagens, por exemplo, são basicamente divididos entre os excêntricos e os marrentos, únicos traços de personalidade que os define, e não por acaso os melhores ainda são aqueles que Del Toro havia criado (e que ganham aqui tamanho desproporcional à sua importância original, como Herman Gottlieb). De resto, Círculo de Fogo 2 teria se beneficiado muito com menos Scott Eastwood e mais Jin Zhang (de que adianta escalar os astros chineses de artes marciais para agradar o público local se eles não dão uma voadorazinha).

Círculo de Fogo: A Revolta
Pacific Rim: Uprising
Círculo de Fogo: A Revolta
Pacific Rim: Uprising

Ano: 2018

País: EUA

Direção: Guillermo del Toro, Steven S. DeKnight

Roteiro: Travis Beacham, Zak Penn, Guillermo del Toro, T.S. Nowlin, Jon Spaihts, Derek Connolly

Elenco: John Boyega, Scott Eastwood, Rinko Kikuchi, Charlie Day, Burn Gorman, Ron Perlman, Max Martini, Karan Brar, Jing Tian, Cailee Spaeny, Levi Meaden, Shyrley Rodriguez, Nick E. Tarabay, Adria Arjona, Rahart Adams, Daniel Feuerriegel, Lily Ji, Zhang Jin, Ivanna Sakhno, Mackenyu Arata, Yingying Lan, Chen Zitong, Yongchen Qian, Wesley Wong

Nota do Crítico
Bom