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Crítica

Cinquenta Tons de Liberdade | Crítica

Trilogia de E.L. James termina com filme sobre nada e muito papai e mamãe

Natália Bridi
09.02.2018
19h29
Atualizada em
29.06.2018
02h24
Atualizada em 29.06.2018 às 02h24

A trilogia Cinquenta Tons é uma fantasia nascida de uma fantasia. Do amor proibido entre a frágil humana e o atormentado vampiro de Crepúsculo, E.L. James criou a história sobre uma jovem acanhada e um sadomasoquista milionário. Na sua fanfic, adicionou descrições picantes, mas moralmente aceitáveis, à imaginação casta de Stephenie Meyer e deu vida a um softporn formatado para um grande público. Era uma nova era do “pornô das mamães”, tão popular que deixou a internet, virou best-seller nas livrarias do mundo e depois uma rentável adaptação cinematográfica.

Enquanto o primeiro livro/filme lidava com o puritanismo de Anastasia Steele e a incapacidade de Christian Grey de amar, o segundo assumia a sua condição novelesca, com o retorno de ex-amantes, namoradas psicóticas, stalkers e a revelação de que Christian, coitado, só gostava de castigar moças frágeis como uma forma de vingança da sua falecida mãe, uma mulher promíscua e viciada em drogas. Já o final da trilogia, Cinquenta Tons de Liberdade, assume de vez o seu propósito sexual. É um filme sobre nada entrecortado por cenas de coito marital.

De lua de mel na Europa, ela quer fazer topless, ele não deixa. O ciúme do macho alfa promete se tornar um ponto-chave da trama. Não. Ela questiona, provoca, mas aceita de bom grado a punição (um papai e mamãe com algemas). É assim o filme todo. Ela cumpre a pressão social de se posicionar como uma mulher não submissa, mas logo concorda com as imposições de Christian. Quando volta ao trabalho, Christian Grey dá um chilique porque a esposa não assumiu profissionalmente o seu sobrenome. Anastasia faz um discurso de bom senso na frente do garoto mimado. Minutos depois já atende por Sra. Grey.

Anastasia finalmente realizou o sonho máximo de transformar o homem imutável e desfruta, entre um drama aqui e outro acolá, de tudo o que Christian pode comprar. “Preciso trabalhar, não posso ficar em casa escolhendo o papel de parede”, reluta, para então partir para mini férias em Aspen sem pensar muito nas suas obrigações como “editora de ficção”. Mais do que o ciúme de Christian ou o ex-patrão psicopata, a grande briga de Anastasia é consigo mesma. Ela quer ser uma esposa modelo, comprar roupas bonitas, fazer o jantar e depois um amorzinho safado com seu maridão, ter dois filhos, um cachorro e passar férias na praia, mas o mundo exige que ela se imponha, que ela resista ao desejo de uma vida endinheirada e ordinária.

Do outro lado, Christian a persegue como um garoto com medo de ser abandonado a qualquer instante, que teme ser pai porque não quer dividir a mãe. Mais uma vez, parece que o filme vai render algum vislumbre em uma mente digna de ser estudada para Sigmund Freud. Não. Um sequestro de araque resolve tudo e Christian Grey está pronto para ser um pai de família. Quase duas horas se passam para que todas as promessas de conflito se mostrarem infrutíferas e chegue o final feliz.

Enquanto admira o seu amado, antes de chamá-lo para o quarto vermelho para mais uma vez apimentar o papai e mamãe com sorvete, algemas ou vendas, Anastasia relembra de tudo que passaram juntos, incluindo um momento em que Christian faz ginástica olímpica. Ela também lembra do seu jatinho, do veleiro, do planador e dos carros de luxo. O casamento lhe deu a liberdade de gostar de sexo e de dinheiro. Anastasia está livre para ser ela mesma, sem a obrigação de ser interessante.

Nota do Crítico
Ruim