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Cinderela | Crítica

Kenneth Branagh faz bom filme, mas esquece da "magia" dos contos de fadas

Natália Bridi
26.03.2015
09h06
Atualizada em
19.08.2019
11h51
Atualizada em 19.08.2019 às 11h51

Desde A Princesa e o Sapo, a realeza da Disney não é mais a mesma. As mocinhas deixaram o posto de donzela a ser resgatada e ganharam desfechos mais complexos do que o casamento com um príncipe encantado (vide Frozen - Uma Aventura Congelante). Quando o estúdio resolveu revisitar os seus clássicos, essa tendência feminista ganhou ainda mais força. Alice se tornou uma empreendedora e Aurora foi apresentada a outras formas de amor verdadeiro nas novas adaptações de No País das Maravilhas e A Bela Adormecida.

Na versão em carne e osso de Cinderela, porém, o roteirista Chris Weitz foge à nova regra. Ainda que não seja a mesma do filme de 1950, a personagem não foi completamente remodelada como as suas colegas. Na pele de Lily James, Cinderela é tão bela, gentil e justa quanto a princesa da animação. O filme apenas redimensiona a sua história, a tornando mais humana em um mundo surreal.

Kenneth Branagh dá pompa ao conto de fadas, seguindo o estilo das suas adaptações shakespearianas. Sob a sua direção, os cenários e os figurinos (assinados por Dante Ferretti e Sandy Powell) ganham um quê teatral. Tudo é artificial, das paisagens aos dentes brancos do príncipe. Branagh, contudo, sabe coordenar todos os elementos às suas mãos e casa o visual exagerado com a história e as atuações, criando uma peça genuína com ingredientes falsos.

O elenco é o componente mais importante nessa receita. James passa uma doçura calculada, que evita que a sua Cinderela se transforme em uma tola que conversa com os ratos da casa. Richard Madden é a encarnação do príncipe encantado, com uma ingenuidade corretamente ajustada para uma realidade de amores à primeira vista (ainda que não mais tão imediatos). A fada-madrinha de Helena Bonham Carter, longe da maternal versão animada, compensa pelo exagero nas suas expressões e gestos a falta da clássica Bibbidi-Bobbidi-Boo no momento da transformação da gata borralheira em princesa (no filme, a canção é apenas uma palavra mágica).

A atração principal, entretanto, é Cate Blanchett. Sua madrasta má tem o mesmo tom caricato e sombrio da versão animada dublada Eleanor Audley. Seca e charmosa, foi  levada à vilania pela incompetência das próprias filhas (as ótimas Sophie McShera e Holliday Grainger). Cinderela é tudo o que ela e seus frutos não são e Blanchett sabe com incorporar a inveja disfarçada de desprezo em cada cena, em cada olhar.

Para Sempre Cinderela (EverAfter), a versão estrelada por Drew Barrymore em 1998, já havia brincado com a ideia de uma gata borralheira “realista”. Talvez isso tenha afastado a Disney da modernização da princesa, mantendo-se fiel ao espírito do próprio clássico. A nova Cinderela, porém, funciona apenas longe das comparações às adaptações anteriores. Branagh entrega um filme redondo e competente, mas falta a “magia eterna" dos contos de fadas, o motivo para ver e rever a mesma história da mocinha apressada que deixa para trás um sapatinho de cristal. 

Veja também (aqui) a nossa opinião sobre Frozen: Febre Congelante, o curta-metragem exibido antes de Cinderela.

Cinderela | cinemas e horários

Nota do Crítico
Bom