Filmes

Crítica

Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível

Mais do que nostalgia, o live-action leva o espectador de volta ao Bosque dos Cem Acres para aprender uma nova lição

Mariana Canhisares
16.08.2018
14h36
Atualizada em
16.08.2018
18h26
Atualizada em 16.08.2018 às 18h26

Valer-se da nostalgia para vender um filme não é mais suficiente. Em tempos em que se anunciam novos reboots e remakes todos os dias, é necessário ter uma boa razão para se voltar ao passado e nem sempre Hollywood acerta a mão. Nesse sentido, Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível é um ponto fora da curva. Há mais do que a mera saudade neste live-action da Disney. Há uma nova lição a se aprender.

Walt Disney/Divulgação

Já na meia idade, Christopher Robin é um homem sem imaginação, cuja vida se resume ao seu emprego em uma fábrica de malas de viagem. O trabalho não o agrada. Ainda assim, ele dedica todo o tempo que dispõe para cumprir as ordens do seu chefe. Nem mesmo nas suas horas vagas ele se permite brincar com sua filha Madeline, como fazia quando criança no Bosque dos Cem Acres com o Ursinho Pooh e seus amigos. Mas, quando o urso velho e bobo aparece de repente em Londres, pedindo sua ajuda para reencontrar toda a turma, Robin se vê sem saída a não ser voltar ao cenário da sua infância e redescobrir um lado seu que se perdeu ao longo dos anos.

Mesmo com Robin nos seus 40 anos, o espírito lúdico e inocente da obra de A.A. Milne e E. H. Shepard é preservado na telona. Desde o início, o filme brinca com uma estrutura semelhante a de um livro, mostrando a evolução do protagonista desde o último dia ao lado dos seus amigos de pelúcia até atingir a idade adulta. Com o avançar da história, a divisão em capítulos é abandonada, mas cada ato funciona quase como uma aventura por si só.

No entanto, a produção não é homogênea. Enquanto o espectador se derrete com o personagem voltando a ser criança, o começo e o fim não são tão encantadores. Parte da razão para isso está no próprio protagonista. Nem mesmo o carisma de Ewan McGregor é capaz de mudar o fato de que a personalidade de Christopher Robin é um pouco entediante. Embora essa caracterização facilite a identificação do espectador, também parte da classe trabalhadora, ironicamente ela afeta o envolvimento com a história.

É claro que a presença do Ursinho Pooh, Tigrão, Leitão e Bisonho compensam esse desequilíbrio. Porém, nem tudo se resolve se valendo de fofura e saudosismo. O roteiro deixa algumas arestas, fruto de decisões que não têm outra justificativa senão servir à trama. Christopher Robin não poderia abandonar o trabalho para ir para a casa de campo com sua família. Mas, para levar Pooh de volta, ele consegue conciliar suas tarefas aos cuidados com o urso. Até a resolução para o grande problema é um pouco precipitada, sem o charme do restante da produção.

Mesmo com esses deslizes, nada anula a mensagem deixada pelo longa. A todo momento, a importância da pasta de Christopher Robin é alvo de comparações com o restante da sua vida e, como no livro, o espectador é posto no lugar no personagem. Qual é o valor que você dá ao seu trabalho? E à sua família? É aí que o filme se torna pessoal. A ingenuidade das perguntas das pelúcias são um tapa na cara, um alerta para a devoção à produtividade que é cada vez mais presente enquanto valor social. Por isso, quando Christopher Robin finalmente se solta e brinca no bosque, é o público que sente o alívio.

Ainda que “não faça nada” pareça uma filosofia simplista para servir como a moral de qualquer história, a verdade é que há algo de reconfortante no ensinamento bucólico de Pooh. Nesse sentido, o filme usa da nostalgia também como uma porta de entrada para dialogar com o público que conquistou décadas antes sobre amadurecimento e trabalho. Sim, acredite se quiser, Christopher Robin é um filme para adultos.

Nota do Crítico
Ótimo