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Crítica

José Loreto carrega a competência de Chorão: Só os Loucos Sabem nas costas

Ator se entrega de corpo e alma para justificar o sonho de viver o Marginal Alado nas telonas

Omelete
3 min de leitura
18.08.2026, às 07H00.

Depois de anos rondando o papel, José Loreto finalmente pôde vestir a pele de Alexandre Magno Abrão, o Chorão, e o resultado confirma que a espera valeu a pena. Não é exagero dizer que o ator era a escolha certa para viver um dos ídolos mais complexos e contraditórios da música brasileira entre os anos 1990 e 2000. Loreto se entrega de corpo e alma ao papel, e sua composição vai muito além da imitação de trejeitos e da voz rouca que qualquer imitador de plateia já tentou reproduzir. Ele entende os demônios de Chorão, entende sua incapacidade crônica de aceitar o amor que recebia, dos fãs, da família, dos companheiros de banda e até de Graziela, seu grande amor, e consegue transmitir essa dor sem nunca cair no exagero ou na caricatura. Se o filme funciona, é porque Loreto segura praticamente sozinho um roteiro que, em vários momentos, falha em dar a ele o suporte que sua atuação merece.

O maior problema de Chorão: Só os Loucos Sabem está na condução da linha do tempo. Hugo Prata e Felipe Novaes, que já haviam mergulhado no universo do cantor com o documentário Chorão: Marginal Alado (2019), parecem ter pressa em chegar à história de amor entre Chorão e Grazi, e essa ânsia custa caro ao primeiro terço do filme. Passagens inteiras da vida do artista são atropeladas: de repente, sem qualquer transição que situe o espectador, Chorão já está morando em Santos, já tem um filho, já integra uma banda e já vive sozinho. É como se os diretores soubessem exatamente aonde queriam chegar, mas não tivessem certeza de como conduzir o público até lá sem pular etapas essenciais da formação do personagem.

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Essa pressa narrativa tem um efeito colateral revelador: os outros integrantes do Charlie Brown Jr. praticamente desaparecem da tela, relegados a coadjuvantes de fundo, com exceção de Champignon (Pedro Tirolli), cujos atritos se tornaram notórios na carreiras dos dois. Para o fã mais dedicado da banda, essa ausência pode incomodar, mas é possível argumentar que o filme apenas espelha a própria dinâmica do grupo: assim como em vida, quem brilhava mais era Chorão, e é nele que a câmera insiste em focar. O problema é que essa escolha de foco, ainda que coerente, acaba cobrando seu preço em outro lugar: a jornada de Graziela.

Nanda Marques entrega uma atuação competente e sensível, mas o roteiro nunca permite que Grazi exista fora da órbita de Chorão. Ela é apresentada, sobretudo, como reação, presença ou musa, e raramente como uma personagem com arco próprio, apesar de ser coautora do livro que deu origem ao roteiro de Duda de Almeida. Até mesmo quando o casal termina e Graziela vai buscar o sonho de ser estilista, o filme sente a necessidade de mostrar o estado emocional de seu protagonista. É uma escolha que enfraquece justamente a relação que o filme elege como seu centro emocional.

Mesmo com essas falhas de estrutura, Chorão: Só os Loucos Sabem cumpre a função mais importante de uma cinebiografia sobre um artista tão amado: emocionar. Quem cresceu ouvindo Charlie Brown Jr. vai se reconhecer em cada referência, em cada música lançada em telas, em cada gesto de Loreto que parece arrancado da memória coletiva. E quem não conhece a fundo a história do cantor também deve se deixar levar, porque o filme, apesar dos tropeços, entende o essencial: contar não apenas a trajetória de um músico, mas o retrato de um ídolo quebrado que transformou dor em poesia urbana. Falta consistência no meio do caminho, mas sobra verdade na entrega do protagonista, e isso é o suficiente para carregar o filme até os créditos finais.

Nota do Crítico

Chorão: Só os Loucos Sabem

Chorão: Só os Loucos Sabem

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NR História
Direção: Hugo Prata, Felipe Novaes
Roteiro: Duda de Almeida
Elenco: José Loreto, Fernanda Marques, Rafael Lozano, Thiago Brianti, Georgette Fadel, Kiko Marques, Leopoldo Pacheco, Marcelo Várzea, Marina Merlino
Data de lançamento: 04 de março de 2027

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