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Chatô - O Rei do Brasil | Crítica

Quinze anos depois, Guilherme Fontes apresenta um filme de brasilidade atemporal

Marcelo Hessel
20.11.2015, às 13H19

Cercado de polêmicas que já viraram folclore, Chatô – O Rei do Brasil literalmente debuta nos cinemas. Faz 15 anos que as filmagens aconteceram, e o debutante entrega sua idade em diversos momentos - como nas cenas em que contracenam os finados Walmor Chagas e José Lewgoy. No geral, porém, é um filme que envelhece bem porque adere a um tipo de comédia que, independente do momento do cinema nacional, nunca sai de moda, a chanchada.

Talvez o diretor Guilherme Fontes se veja trazendo para o cinema local uma sensibilidade de desvario felliniano - e os personagens que ele escolhe interpretar, animadores de auditório meio clowns, meio galãs, têm tanto a ver com Chacrinha quanto com os apresentadores de circo dos picadeiros de Fellini. A sua adaptação livre do best-seller homônimo de Fernando Morais, porém, está inscrita primeiro numa longa tradição nacional de lidar com nossas relações de poder pela via do escracho e do sexo.

O filme repassa momentos fundamentais da vida do jornalista e magnata Assis Chateaubriand (1892-1968), que no livro já tinham um caráter de anedota, como a importação de televisores para a estreia da TV Tupi ou o começo da sua coleção de arte que resultaria no acervo do MASP. Mas o que serve de fio condutor são as mulheres, centralmente o triângulo amoroso entre Chatô (Marco Ricca), Getúlio Vargas (Paulo Betti) e a socialite Vivi Sampaio (Andréa Beltrão), e as viradas no filme se dão em função desse triângulo.

Se Fontes chega a creditar a Vivi Sampaio e um episódio de ciúme o estopim do Atentado da Rua Tonelero (com Gabriel Braga Nunes vivendo no filme uma versão ficcional de Carlos Lacerda), é porque na chanchada o sexo sempre funciona como manifestação carnavalesca das nossas idiossincrasias, desde que o primeiro senhor entrou escondido de madrugada na primeira senzala para fornicar. O fade to black memorável que encerra o filme problematiza a questão de maneira certeira: no Brasil é o sexo que nos une, que nos liberta e nos sufoca.

Nessa pegada sanguínea que norteia todo o filme, Marco Ricca interpreta Chatô com vigor, como se canalizasse energias vindas de várias matrizes, de Brás Cubas a João Grilo, passando por Charles Foster Kane - a associação óbvia (e herética) que se faz entre Chatô e Cidadão Kane. Além do parentesco entre os dois longas - contados como obituários de uma personalidade midiática, de seu ofício, de seu estilo de vida - a opção pelo filme-delirio permite a Fontes, como já permitira a Orson Welles, fazer experimentos formais vários.

Chatô não é bem sucedido o tempo todo nessas experimentações - a montagem com planos curtíssimos que se repetem, como piscadelas, parece mais exibicionismo do que ferramenta - mas elas dão conta de um anseio de mostrar, de discutir. O filme já se tornou indissociável do longo processo a que foi submetido, e toda essa espera se transforma, na tela, em um discurso caótico e irascível que flerta com a iconoclastia (ou, mais exatamente, com outra tradição da nossa arte, a antropofágica), como se o filme fosse se autodestruir depois de visto.

Enquanto Fontes esteve envolvido nos seus imbróglios com a Justiça, o cinema brasileiro gerou uma leva de cinebiografias chapas-brancas que só conseguiam usar como régua o sucesso de seus homenageados. Pois Chatô funciona muito bem como reação a isso: é uma elegia farsesca sobre um animador, um coronel, um comunicador, um visionário, um mafioso, um brasileiro que nos seus brilhos e nos seus defeitos representa todos nós.

Chatô - O Rei do Brasil
Chatô - O Rei do Brasil
Chatô - O Rei do Brasil
Chatô - O Rei do Brasil

País: Brasil

Classificação: 14 anos

Direção: Guilherme Fontes

Elenco: Marco Ricca, Paulo Betti, Andréa Beltrão, Gabriel Braga Nunes, Leandra Leal, Eliane Giardini, Letícia Sabatella, Zezé Polessa

Nota do Crítico
Bom

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