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Cara-de-Barro aproveita o body horror para contar drama nojento sobre vilão do Batman

Filme do DC Studios abraça o gênero do terror com bons resultados e conta com atuação pra lá de carismática de seu astro.

Omelete
4 min de leitura
21.10.2026, às 16H00.
Cara-de-Barro

Créditos da imagem: Warner Bros.

Desde sua origem na era de ouro dos quadrinhos da DC, lá atrás nos anos 1940, o Cara-de-Barro é um vilão que convida a conversa sobre identidade, espetáculo e transformação. Originalmente uma figura inspirada em Boris Karloff e Basil Rathbone, grandes figuras hollywoodianas da época, Basil Karlo era um ator e maquiador que usou seus talentos em busca de uma vingança sangrenta. A versão mais conhecida do personagem, porém, e a que protagoniza o filme dirigido por James Watkins, é Matt Hagen.

Um ator de renome, Hagen, no filme, é uma espécie de Leonardo DiCaprio nos anos 2000. Ele é jovem, mas não lhe falta renome. Quando o longa começa, ele acabou de ser indicado ao Oscar, um feito que ele celebra primeiro abraçado com os amigos e colegas mas, depois, falando sozinho com a mãe que já partiu. Em sua pele, Tom Rhys-Harris expressa um carisma mais quieto, low-key, como alguém que sabe o magnetismo que possui. Tudo, claro, começa com seu rosto. Com um sorriso de milhões, ele atrai muita atenção, inclusive a de Mia Torrez (Joana Ribeiro), uma atriz em ascensão envolvida com o mafioso Marko Szabo (David Dencik). Uma coisa leva a outra, e logo, o rosto de Hagen paga o preço.

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Com começo ágil, Cara-de-Barro não demora para colocar todas as peças no lugar. Se com 10 minutos de filme já vemos o resultado horrendo da lâmina de Szabo, com 20 minutos, Hagen já está buscando ajuda da medicina experimental da Dra. Caitlyn Corr (Naomi Ackie), que tem trabalhado com células inteligentes capazes de curar ferimentos. Convencida de que Hagen pode trazer o holofote (e, portanto, o orçamento) para seu projeto, ela aceita usá-lo de cobaia humana, uma decisão que logo traz consequências monstruosas.

Cara-de-Barro
Warner Bros.

Cara-de-Barro passa a levantar todos os temas comuns a este algoz do Batman. Enquanto vê seu rosto, sua principal ferramenta de trabalho, destruído, Hagen passa a refletir sobre quem ele é, e quando descobre o poder de assumir a aparência de outras pessoas, o ator passa a repensar o que significa a ideia de interpretar um papel.

Nenhum desses temas é explorado a fundo, mas a ideia de performance é uma que permeia todo o drama que vem a seguir. Apesar de toques de terror, especialmente do tipo corporal, esse é essencialmente um drama. Há alusões para um passado traumático e sugestões de que alguns dos podres desenterrados por Szabo para assassinar o caráter de Hagen junto com sua aparência não são, apesar dos protestos do astro caído, mentiras. Talvez o roteiro original de Mike Flanagan (A Maldição da Residência Hill, Carrie) tivesse mais a dizer sobre isso (o papel de Aaron Paul como o pai de Matt provavelmente era maior, mas foi reduzido a vislumbres), mas a revisão de Hossein Amini dispensa muito disso. Parece ter sido a decisão correta: Cara-de-Barro é uma tragédia, mas não uma que tenta justificar os erros de seu personagem vilão com base numa criação difícil ou herança familiar. O trauma não está no passado, mas sim no filme que estamos vendo.

Por outro lado, abraçar a ideia de que Hagen era, de fato, um cara problemático ajudaria a perpetuar a decisão muitíssimo bem-vinda do filme de não transformar seu protagonista num anti-herói, e especialmente no seu terceiro ato, Cara-de-Barro deixa claro que Matt Hagen abraçou a escuridão de forma que, talvez, não tenha volta. Rhys-Harries é excelente em todos esses modos. Como estrela, ele encarna o carisma de uma celebridade. Como vítima, ele escancara um desespero fundamental. Como vilão, ele é convincente o suficiente para aliviar algumas decisões aceleradas do texto, particularmente as que envolvem o noivo de Caitlyn, o detetive John Borelli (Max Minghella), responsável por adicionar um quê de novela à história que nunca se encaixa com o restante da obra.

Cara-de-Barro
Warner Bros.

A atuação de Rhys-Harries, inclusive, merecia um filme mais bem-dirigido à sua volta. Não me entenda errado: Watkins, responsável pelo remake norte-americano de Não Fale o Mal, é capaz de compor algumas imagens marcantes. A "carne" viva no laboratório de Caitlyn; as cirurgias plásticas que falharam em reparar seu rosto; as mortes mais violentas que Hagen causa (incluindo um final kill pra lá de memorável) flutuam bem entre o nojento e o fascinante. O tipo de coisa que nos deixa com vontade de desviar o olhar, mas também nos convida a continuar assistindo.

Nada aqui vai testar pessoas com gosto pelo body horror. Se você já viu Cronenberg, ou até A Substância, vai se pegar desejando que a intensidade do trabalho de Watkins fosse maior. Na verdade, essa é uma sensação que permeia boa parte de Cara-de-Barro. Seja na hora que o filme discute a ideia de personalidades, de atuação como forma de tomar uma outra identidade, ou quando mostra algo grotesco em tela, Cara-de-Barro se beneficiaria de mais eletricidade.

E há sinais disso. A sequência final, que leva Hagen de volta à boate onde ele conheceu Hagen, e a transformação completa do vilão (genuinamente marcantes), saltam aos olhos. Eles são os melhores exemplos de um filme competente que poderia ser ainda melhor. Independente disso, Cara-de-Barro é um acerto para o DC Studios, um que sugere que a ideia de James Gunn de deixar os filmes do estúdio assumirem diferentes gêneros cinematográficos tem muito potencial. Eu não diria que Cara-de-Barro alcança 100% desse potencial, mas ele, sem dúvidas, abre a porta.

Nota do Crítico

Cara-de-Barro

Clayface

Ver ficha completa Lauch Icon
NR Terror, Thriller, Ficção científica
Direção: James Watkins
Roteiro: Bill Finger, Bob Kane, Mike Flanagan, Mike Flanagan, Hossein Amini
Elenco: Tom Rhys Harries, Naomi Ackie, Eddie Marsan, Max Minghella, David Dencik, Francesca Corney, Ruby Sear, Wil Coban, Joshua James
Data de lançamento: 21 de outubro de 2026

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