Capitã Marvel

Créditos da imagem: Capitã Marvel/Marvel Studios/Reprodução

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Crítica

Capitã Marvel

Redondinho, filme aposta na fórmula Marvel para apresentar a heroína mais forte do universo, sem se permitir grandes ousadias

Mariana Canhisares
05.03.2019
11h01

Carol Danvers não sabe tudo. Na realidade, ela erra, se decepciona e cai - não uma, mas muitas vezes. Mesmo assim, não importa a situação ou o adversário, ela sempre se levanta e tenta de novo, até finalmente conseguir. Esta resiliência, traço fundamental de todos os heróis do MCU, em Capitã Marvel ganha outro significado. O primeiro filme solo de uma heroína da editora marca mais um aceno do Marvel Studios à diversidade, agora representando a jornada de uma mulher aparentemente comum em busca da sua identidade e da origem da sua força.

Ainda que o discurso feminista esteja presente em diferentes momentos da trama, o estúdio surpreende por sua cautela e não abraça a causa por completo, como fez em Pantera Negra. Não faltam flertes, é verdade. Os diretores Anna Boden e Ryan Fleck retratam situações machistas cotidianas com muito bom humor, fazendo piada não com as ocorrências, mas com as ideias ultrapassadas que escondem. Há também o evidente cuidado de adaptar a história das HQs para uma origem mais simbólica e coerente com o século XXI. Porém, o interesse principal aqui não é necessariamente enaltecer o girl power ou fazer uma crítica social profunda, mas sim servir ao cronograma do estúdio. Afinal, a heroína chega aos cinemas com o peso de ter que provar que está à altura de Thanos, introduzir a pouco abordada guerra Kree-Skrull e se conectar a vários pontos apresentados em filmes anteriores da Marvel.

Por isso, não é de se estranhar que o longa comece com um ritmo mais lento, tomando tempo para explicar o conflito central - mais profundo do que aparenta - e, claro, o papel da protagonista nesta história. O didatismo poderia se tornar enfadonho, mas o roteiro assinado por Boden, Fleck e Geneva Robertson-Dworet encontra soluções interessantes e deixa a determinação de Carol Danvers guiar o resto. Assim, gradualmente, Capitã Marvel ganha uma cadência mais intensa e é na chegada dela na Terra que o filme engrena de vez.

A parceria com Nick Fury e o reencontro com a melhor amiga Maria Rambeau são as pontes para explorar a humanidade da personagem e, portanto, para gerar identificação com o público. Enquanto a relação com o agente da S.H.I.E.L.D. lembra a química de uma comédia buddy cop e dá leveza à guerra por mostrá-la pelos olhos ainda inocentes de Fury, a piloto é a grande conexão da heroína com seu passado. Está nas lembranças de Maria a representação da sororidade das amigas, seja enfrentando os preconceitos como pilotos, seja no apoio para a criação da pequena Monica Rambeau.

Sem o carisma e as atuações de Samuel L. Jackson e Lashana Lynch, o filme certamente não seria o mesmo. Embora Brie Larson faça um bom trabalho, é a dupla de humanos sem habilidades especiais que realmente encanta e gera simpatia pela heroína. A pequena Akira Akbar, que vive Monica, também rouba a cena ao representar esta nova geração de meninas sonhadoras, que crescerão com as figuras da Capitã Marvel e da Mulher-Maravilha para as inspirarem a serem o que bem entenderem, e não o que esperam delas.

Acostumado ao tipo vilanesco, Ben Mendelsohn não joga no seguro e é igualmente um destaque nessa narrativa. Interpretando Talos, um líder Skrull, o ator entrega uma performance bonita e sensível, apesar de seu rosto estar escondido por trás de toda aquela maquiagem verde. Como era de se esperar, Jude Law e Annette Bening, os representantes do lado Kree, também não decepcionam - ainda que a empolgação da premiada atriz em fazer parte do MCU seja transparente em praticamente todas as cenas.

Uma produção com personagens tão cativantes e uma trama interessante e atual não deveria parecer apenas mais uma, sobretudo considerando que a heroína foi apresentada como a esperança em um mundo pós-Guerra Infinita. Entretanto, essa é a sensação predominante. Porque, em última instância, Capitã Marvel é um filme tímido.

Seguindo a famigerada fórmula Marvel quase que passo a passo, ele não se permite ousadias e fica apenas em um retrato raso dos anos 1990 e das particularidades das sociedades Kree e Skrull. Hits do Elastica e do TLC até embalam a trilha sonora, no que parece uma tentativa de emular o que James Gunn fez em Guardiões da Galáxia, mas o longa nunca alcança um resultado semelhante ou minimamente memorável. Mesmo o design de produção, grande oportunidade de pirar e explorar a cultura dessa nova parte do espaço, passa batido de tão banal. No fundo, chega a ser irônico o quanto a busca de Carol pela sua própria história não tem identidade.

Há um desequilíbrio também nos efeitos visuais. Os esforços para rejuvenescer Samuel L. Jackson foram muito bem-sucedidos, provando de uma vez por todas que essa tecnologia pode e deve ser usada em novas produções no futuro. Por outro lado, no que diz respeito a cenas mais elaboradas de ação ou ambientes mais inusitados, como o da Inteligência Suprema, é muito perceptível o uso da computação gráfica. Logo, nem sempre o filme cria uma imagem uniforme e crível do espaço, algo que o estúdio certamente tem a capacidade de entregar.

Ainda assim, Capitã Marvel cumpre seus objetivos com uma história redondinha e apresenta uma líder forte e debochada, sem repetir o tipo arrogante de Tony Stark ou cair no estereótipo da força feminina. Não se pode negar, Carol Danvers tem uma personalidade original. Poderes à parte, seu potencial neste universo está não somente nos seus êxitos, mas também nas suas falhas. É na sua empatia e na sua humanidade que ela triunfa.

Nota do Crítico
Ótimo