Capitã Marvel

Créditos da imagem: Capitã Marvel/Marvel Studios/Reprodução

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Crítica

Capitã Marvel

Redondinho, filme aposta na fórmula Marvel para apresentar a heroína mais forte do universo, sem se permitir grandes ousadias

Mariana Canhisares
05.03.2019
11h01
Atualizada em
22.04.2019
13h06
Atualizada em 22.04.2019 às 13h06

Carol Danvers não sabe tudo. Na realidade, ela erra, se decepciona e cai - não uma, mas muitas vezes. Mesmo assim, não importa a situação ou o adversário, ela sempre se levanta e tenta de novo, até finalmente conseguir. Esta resiliência, traço fundamental de todos os heróis do MCU, em Capitã Marvel ganha outro significado. O primeiro filme solo de uma heroína da editora marca mais um aceno do Marvel Studios à diversidade, agora representando a jornada de uma mulher aparentemente comum em busca da sua identidade e da origem da sua força.

Ainda que o discurso feminista esteja presente em diferentes momentos da trama, o estúdio surpreende por sua cautela e não abraça a causa por completo, como fez em Pantera Negra. Não faltam flertes, é verdade. Os diretores Anna Boden e Ryan Fleck retratam situações machistas cotidianas com muito bom humor, fazendo piada não com as ocorrências, mas com as ideias ultrapassadas que escondem. Há também o evidente cuidado de adaptar a história das HQs para uma origem mais simbólica e coerente com o século XXI. Porém, o interesse principal aqui não é necessariamente enaltecer o girl power ou fazer uma crítica social profunda, mas sim servir ao cronograma do estúdio. Afinal, a heroína chega aos cinemas com o peso de ter que provar que está à altura de Thanos, introduzir a pouco abordada guerra Kree-Skrull e se conectar a vários pontos apresentados em filmes anteriores da Marvel.

Por isso, não é de se estranhar que o longa comece com um ritmo mais lento, tomando tempo para explicar o conflito central - mais profundo do que aparenta - e, claro, o papel da protagonista nesta história. O didatismo poderia se tornar enfadonho, mas o roteiro assinado por Boden, Fleck e Geneva Robertson-Dworet encontra soluções interessantes e deixa a determinação de Carol Danvers guiar o resto. Assim, gradualmente, Capitã Marvel ganha uma cadência mais intensa e é na chegada dela na Terra que o filme engrena de vez.

A parceria com Nick Fury e o reencontro com a melhor amiga Maria Rambeau são as pontes para explorar a humanidade da personagem e, portanto, para gerar identificação com o público. Enquanto a relação com o agente da S.H.I.E.L.D. lembra a química de uma comédia buddy cop e dá leveza à guerra por mostrá-la pelos olhos ainda inocentes de Fury, a piloto é a grande conexão da heroína com seu passado. Está nas lembranças de Maria a representação da sororidade das amigas, seja enfrentando os preconceitos como pilotos, seja no apoio para a criação da pequena Monica Rambeau.

Sem o carisma e as atuações de Samuel L. Jackson e Lashana Lynch, o filme certamente não seria o mesmo. Embora Brie Larson faça um bom trabalho, é a dupla de humanos sem habilidades especiais que realmente encanta e gera simpatia pela heroína. A pequena Akira Akbar, que vive Monica, também rouba a cena ao representar esta nova geração de meninas sonhadoras, que crescerão com as figuras da Capitã Marvel e da Mulher-Maravilha para as inspirarem a serem o que bem entenderem, e não o que esperam delas.

Acostumado ao tipo vilanesco, Ben Mendelsohn não joga no seguro e é igualmente um destaque nessa narrativa. Interpretando Talos, um líder Skrull, o ator entrega uma performance bonita e sensível, apesar de seu rosto estar escondido por trás de toda aquela maquiagem verde. Como era de se esperar, Jude Law e Annette Bening, os representantes do lado Kree, também não decepcionam - ainda que a empolgação da premiada atriz em fazer parte do MCU seja transparente em praticamente todas as cenas.

Uma produção com personagens tão cativantes e uma trama interessante e atual não deveria parecer apenas mais uma, sobretudo considerando que a heroína foi apresentada como a esperança em um mundo pós-Guerra Infinita. Entretanto, essa é a sensação predominante. Porque, em última instância, Capitã Marvel é um filme tímido.

Seguindo a famigerada fórmula Marvel quase que passo a passo, ele não se permite ousadias e fica apenas em um retrato raso dos anos 1990 e das particularidades das sociedades Kree e Skrull. Hits do Elastica e do TLC até embalam a trilha sonora, no que parece uma tentativa de emular o que James Gunn fez em Guardiões da Galáxia, mas o longa nunca alcança um resultado semelhante ou minimamente memorável. Mesmo o design de produção, grande oportunidade de pirar e explorar a cultura dessa nova parte do espaço, passa batido de tão banal. No fundo, chega a ser irônico o quanto a busca de Carol pela sua própria história não tem identidade.

Há um desequilíbrio também nos efeitos visuais. Os esforços para rejuvenescer Samuel L. Jackson foram muito bem-sucedidos, provando de uma vez por todas que essa tecnologia pode e deve ser usada em novas produções no futuro. Por outro lado, no que diz respeito a cenas mais elaboradas de ação ou ambientes mais inusitados, como o da Inteligência Suprema, é muito perceptível o uso da computação gráfica. Logo, nem sempre o filme cria uma imagem uniforme e crível do espaço, algo que o estúdio certamente tem a capacidade de entregar.

Ainda assim, Capitã Marvel cumpre seus objetivos com uma história redondinha e apresenta uma líder forte e debochada, sem repetir o tipo arrogante de Tony Stark ou cair no estereótipo da força feminina. Não se pode negar, Carol Danvers tem uma personalidade original. Poderes à parte, seu potencial neste universo está não somente nos seus êxitos, mas também nas suas falhas. É na sua empatia e na sua humanidade que ela triunfa.

Nota do Crítico
Ótimo