Cadê Você, Bernadette?

Créditos da imagem: Cadê Você, Bernadette?/Annapurna Pictures/Reprodução

Filmes

Crítica

Cadê Você, Bernadette?

Cate Blanchett brilha em adaptação que evita o paternalismo da literatura motivacional

Marcelo Hessel
08.11.2019
14h15
Atualizada em
08.11.2019
13h15
Atualizada em 08.11.2019 às 13h15

Que sessão dupla incrível daria o brasileiro A Vida Invisível com Cadê Você, Bernadette?, um com seus jovens transportados para as roupas largas do mundo dos adultos e o outro com seus adultos vulneráveis como jovens; um o melodrama tropical, feito das saturações de cor do Rio de Janeiro, o outro nublado, na melancólica e eternamente cinzenta Seattle.

Em ambos os filmes as condições climáticas acabam tendo coadjuvação relevante, em particular o vento, que não dá um minuto de descanso para a franja de Cate Blanchett, embora seja curto e comportado o corte de cabelo da personagem Bernadette, neste filme de Richard Linklater que adapta o romance best-seller de Maria Semple. Ou talvez Bernadette seja simplesmente indomável, andando de um lado para o outro ocupando-se de pequenas tarefas e aborrecimentos do dia a dia para não ter que pensar no grande vazio da vida.

Se o melodrama trata, por tradição no cinema, principalmente de tempestades que ocorrem dentro de mulheres acondicionadas a amarras sociais, Bernadette não é exceção, mesmo que o filme se passe numa região progressista dos EUA e tenha gente rica e bem resolvida como protagonistas. Os dramas da personagem não demoram para aflorar como um choro infantil, que Linklater filma em certo momento através do vidro do carro; mal podemos ver Blanchett no meio dos pingos da chuva intensa, enquanto ela canta “Time After Time” ao lado da filha.

A esse padrão do melodrama - fazer do conflito interno um conflito com o mundo exterior, demarcado aqui na chuva, no deslizamento, na briga contra ondas do mar - Linklater adiciona a questão bem particular que é tratar algumas coisas como se fosse um filme de adolescentes: voltar à juventude está na cena do canto do sucesso dos anos 80, está nas tretas de Bernadette com as mães populares da escola, está nas roupas de cores juvenis da potencial amante do marido. Até mesmo a dinâmica de Bernadette com sua assistente pessoal, para quem ela dita e-mails, evoca as confidências das adolescentes aos seus diários.

Há um tom farsesco nisso e não seria um espanto se este filme fosse dirigido por Amy Heckerling, de Patricinhas de Beverly Hills. Com Linklater à frente, sempre atento para a leveza do humor, a adaptação aproveita sua sensibilidade para ritos de passagem, que o diretor de Boyhood sempre abordou em sua carreira, pelo menos desde Jovens, Loucos e Rebeldes. A melancolia de abandonar as irresponsabilidades da juventude talvez não seja tão diferente da melancolia de ver, de longe, as oportunidades perdidas do passado.

As dinâmicas dos três personagens principais - Bernadette, seu marido e a filha - são muito espertas no sentido de diminuir essa lacuna entre a juventude e a vida adulta, e até confundi-las. A filha, particularmente, tem algumas das falas mais “adultas” que poderia se esperar de um filme em 2019, e a atriz Emma Nelson se segura muito bem nos momentos de discussão tensa. Linklater entende de ritos de passagem, não faz disso uma coisa de autoajuda paternalista ou condescendente, e inclusive nessas cenas de tensão o filme se destaca pela franqueza (como a discussão com a vizinha ou no restaurante da Space Needle), o que ajuda o filme a se diferenciar da maioria das adaptações de literatura motivacional.

A modulação é muito bem feita, e o humor ajuda a intensificar os momentos tensos; inclusive Linklater se vacina contra excessos de seriedade porque frequentemente a encenação assume os já mencionados tons de farsa (também nos personagens caricaturais como o milionário da TV, as cenas de mockumentary). 

Quem melhor personifica essa modulação é Blanchett - cuja atuação aqui mostra o melhor da sua versatilidade. Não se trata de uma atuação exibicionista e solene como a de Manifesto, e os rompantes de Bernadette estão longe também daquela histeria de Blue Jasmine, um filme que flertava com o sadismo ao tratar a atuação de Blanchett numa atração de fetiche. Aqui, ao mesmo tempo em que lhe dá liberdade, Linklater sabe envolver Blanchett; a decupagem está sempre preocupada em inseri-la no espaço e na relação com os outros (como os planos da câmera passando de um lado ao outro pelas costas das pessoas), e escolhe bem ângulos para não isolá-la. Isso implica até sublimá-la, como no momento do abraço final, o plano do gorro de lã (que provavelmente Bernardette costurou), em que o rosto da atriz termina encoberto, pacificado.

O fato de Linklater dedicar o filme à sua mãe, Diane (“minha Bernadette”, diz o agradecimento nos créditos), falecida em 2017 enquanto o diretor comandava os ensaios, diz muito sobre a sensibilidade e a precisão com que ele trata a adaptação. Ao fim podemos até relevar que a mensagem central (criar, criar!) não deixa de ser um dos fatores do que o longa problematiza (criar, criar, essa necessidade de ser validado pelo sistema como um indivíduo que produz, pode ser uma fonte de ansiedade também).

Nota do Crítico
Ótimo