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Crítica

Caça-Fantasmas | Crítica

Novo filme subverte o original e transforma uma disputa de classes numa disputa de gêneros

Marcelo Hessel
13.07.2016
14h40
Atualizada em
29.06.2018
02h43
Atualizada em 29.06.2018 às 02h43

O novo Caça-Fantasmas (Ghostbusters, 2016) é um objeto estranho em meio a tantos blockbusters que jogam seguro e fazem refilmagens disfarçadas de continuações, para não desagradar os fãs velhos e tentar atrair os novos, de O Exterminador do Futuro: Gênesis e Jurassic World a Star Wars - O Despertar da Força e Independence Day - O Ressurgimento.

É essa cara de novidade que sustenta um filme que, no geral, não tem o mesmo vigor cômico ininterrupto das comédias anteriores que o roteirista e diretor Paul Feig fez com as atrizes Kristen Wiig e Melissa McCarthy, Missão Madrinha de Casamento e A Espiã que Sabia de Menos. Do timing das piadas ao arco dramático (sempre variações da ideia feminista de que uma mulher pode reconhecer na outra uma parceira e não necessariamente uma concorrente a invejar), Caça-Fantasmas sai perdendo nessa comparação, mas isso não significa que o filme faça feio diante dos dois Ghostbusters anteriores - pelo contrário.

Feig subverte a premissa do original e a atualiza sem deixar de prestar as esperadas homenagens. O filme de 1984 era obra dos anos Reagan: assim como em outras comédias que reconstruíam a confiança dos EUA pós-Nixon a partir da base, dos seus trabalhadores de colarinho azul, como Fábrica de Loucuras (1986), tínhamos no original uma equipe que operava como detetizadores e, aos olhos da prefeitura, eram párias demais para ter o reconhecimento da mídia e do restante dos novaiorquinos. Agora os Caça-Fantasmas são quatro mulheres, e o que Feig faz é transformar a disputa de classes numa disputa de gêneros.

E como faz: o filme junta a morena, a loira, a negra e a ruiva numa sucessão de provocações contra o status quo do machismo, ora pontuais e literais (as menções aos haters de caixa de comentários, o vilão virjão, o laser no saco do fantasma) ora sinuosas (o vocabulário científico jorrado pelas mulheres, o detector de fantasmas que é praticamente uma vagina de neon). No centro de Caça-Fantasmas está um discurso afirmativo que parte de um trauma (o filme tem uma pegada mais dramatizada que o original, para justificar o arco de superação da personagem de Wiig) para consumar o girl power, da forma mais literal (de novo) que um filme desses permite: com as nerds de macacão celebradas como rockstars no palco de um show.

Por mais que este Caça-Fantasmas pareça um filme de uma piada só, Feig coloca a serviço do empoderamento feminino todo o seu arsenal de autor, tanto de incorreções políticas quanto de sensibilidades de casting. Então ele não deixa de colocar Melissa McCarthy em situações que desmistificam os pudores sobre o corpo (a cena em que ela testa a mochila de prótons pela primeira vez é hilária), embora num grau menor do que em A Espiã que Sabia de Menos, e também escolhe os melhores atores para personificar o temível patriarcado (Charles Dance poderia ter sido melhor aproveitado).

Independente do que pense sobre questões de identidade de gênero, o espectador vai encontrar no novo Caça-Fantasmas um filme que não se limita a reembalar o velho em nome da nostalgia. Na verdade o grande tributo que Feig presta para o original é justamente não ousar replicá-lo.

Nota do Crítico
Ótimo