Butterfly Jam cutuca masculinidade com ótima atuação de Barry Keoghan
Exibido em Cannes 2026, filme do russo Kantemir Balagov acompanha imigrantes em Nova Jersey (EUA)
Créditos da imagem: Barry Keoghan e Riley Keough em Butterfly Jam (Reprodução)
O uso da cor de rosa em Butterfly Jam é pra lá de marcante. Nas luzes, nas roupas de personagens, num pelicano que desempenha um papel curioso no filme; o diretor russo Kantemir Balagov usa o pigmento de forma muito intencional. Normalmente associado à preferência feminina, o rosa é praticamente só visto em personagens masculinos, como a dupla de pai e filho Azik (Barry Keoghan) e Temir (Talha Akdogan), mais conhecido pelo apelido Pyteh (pequeno), quase como se Balagov quisesse usar nossas pré concepções contra nós. O rosa, nesses homens, tem a missão de deixá-los vulneráveis.
Não é à toa. Masculinidade frágil é um dos temas claros na mente de Balagov. A ideia do homem forte, a fraqueza como pior ofensa imaginável e a recorrência da comparação de força física entre eles são apenas algumas das avenidas que o jovem cineasta toma, em seu primeiro filme em inglês, para tratar do conceito da hombridade, e como muitas vezes quem mais performa esse papel é quem está mais propenso a sentí-la quebrando – e vice-versa. Por exemplo, apesar de haver um carinho no uso de Pyteh para se referir a Temir por seu pai e amigos, o menino não tem nada de pequeno. Com 16 anos, ele tem o corpo definido e já coleciona troféus de luta greco-romana na cidade de Newark (EUA), se classificando para o campeonato estadual da Nova Jersey e se mostrando capaz de derrubar adultos com o dobro de sua idade.
Ainda assim, ele pouco se importa com isso. Apesar de não ser sempre o melhor exemplo, Azik claramente o criou com amor o suficiente para que seu filho, que perdeu a mãe ainda novo demais para ter memória da mesma, jamais duvide de seu valor. É o oposto do que acontece com Marak (Harry Melling), o melhor amigo de Azik e um personagem que vive sempre na correria para tentar se provar, tipicamente escolhendo as piores ideias possíveis para tal. Sua apresentação em Butterfly Jam vem quando ele brinca de assalto para assustar um amigo rico com quem Azik está jogando pôquer. Marak nunca deixará de tentar transmitir essa imagem perigosa, e no momento em que ele perde o equilíbrio entre o que finge fazer e o que realmente faz, há uma virada sombria e dura no filme.
Não será spoiler dizer que Azik morre em Butterfly Jam, afinal a primeira cena do longa foca em Temir falando que perdeu o pai. Spoiler, porém, seria descrever as circunstâncias de sua morte, um episódio que reúne as principais ideias de Balagov num lance ousado que o diretor consegue, no geral, entregar. Há uma espécie de previsibilidade no evento – algo que vai além da morte ser declarada no primeiro minuto do longa – que faz toda a situação parecer simultaneamente forçada e ensaiada, mas o que é construído antes e depois dessa tragédia compensa os tropeços.
Azik é chef num diner de comida circassiana. Nascido na em Nalchik (Rússia), ele imigrou para os EUA ainda adolescente com os pais e a irmã Zalya (Riley Keough). Ali, com o filho, com Marak e outros amigos, eles vivem numa comunidade íntima e orgulhosa. Não é um acidente que Balagov, também natural de Nalchik, escolheu essa como sua estreia em língua inglesa – a crise de identidade pela qual muitos imigrantes passam é ilustrada, por exemplo, na mistura de russo com inglês em praticamente todo o diálogo do longa. E, ao explorar a redefinição de identidade, ele encontra espaço para falar dessa temática em diversas frentes.
A principal, já dissemos, é na masculinidade, mas não para por aí. A escolha de Nova Jersey é curiosa, especialmente pela quantidade de planos em que personagens enxergam a vizinha mais rica, Nova York, no horizonte. Apesar de uma brincadeira na qual Azik diz que Zalya virou americana, a verdade é que nenhum deles parece saber quem são, ainda – e, no caso de Zalya, isso infelizmente se estende ao roteiro de Balagov e Marina Stepnova, um texto com pouco interesse na personagem.
Talvez Temir seja a exceção dentro desse conjunto. Talvez por isso ele tente convencer o pai a deixar o diner para trás e virar chef do restaurante que o amigo rico quer abrir. Talvez por isso, também, ele se decepcione quando Azik recusa a ideia. Por alguma razão, Temir não enxerga a dúvida sobre sua identidade como um problema, mas sim como um desafio a ser encarado. É uma provocação que Butterly Jam também aceita, e responde muito bem.
Butterfly Jam
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