Brexit

Créditos da imagem: Brexit/Divulgação

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Crítica

Brexit

Novo filme estrelado por Benedict Cumberbatch traz tema político complexo com irreverência, mas bastante responsabilidade

Matheus Bianezzi
07.02.2019
21h27

Transformar um assunto tão polêmico quanto o Brexit em uma produção não é fácil. É muito cedo para ter um panorama geral cristalino do tema a ponto de ser possível criar um filme, afinal, as negociações ainda estão acontecendo - tanto no âmbito político quanto criminal. Sorte dos espectadores que o roteirista James Graham sabe disso. Com um recorte bem específico do mar de escuridão que são os bastidores do movimento, Brexit é um filme com uma alta taxa de entretenimento, mas sem deixar de ser perturbador nas entrelinhas.

Ainda que o longa permeie as discussões políticas, morais e econômicas do Brexit, o grande foco está nos responsáveis pela grande virada que o plebiscito sofreu. Enquanto a separação da União Europeia era apenas uma conversa antiga ganhando força novamente entre os conservadores, parlamentares influentes decidiram iniciar a campanha a favor da saída. No melhor estilo "Iniciativa Vingadores", o estrategista político Dominic Cummings (Benedict Cumberbatch) é convidado para ser o líder e grande arquiteto de tudo que estaria por vir. Não demora para ele perceber que uma campanha publicitária tradicional não traria os resultados esperados. Usando de algoritmos fornecidos por redes sociais e softwares que beiram a ilegalidade - e transbordam imoralidade -, Cummings muda a trajetória do referendo à seu favor e conquista a vitória.

Tratando-se de um filme que tem seus pilares em acontecimentos reais, os personagens têm que manter um mínimo de coerência para não se tornarem caricatos. Aqui, alguns foram feitos melhores que outros: Cumberbatch dá um show de atuação, como já é de praxe, e entrega um protagonista convincente em todos os momentos. Sua caracterização é sóbria o bastante para se tornar persuasiva mas sem perder a excentricidade que o filme propõe. Na contramão, políticos britânicos que foram o rosto da campanha não tiveram o mesmo destino. Boris Johnson (Richard Goulding), o prefeito de Londres na época que o filme se passa, foi retratado de uma forma bastante caricata, parecendo mais um adolescente fantasiado dele mesmo. As reproduções de outros dois políticos, Nigel Farage (Paul Ryan) e Arron Banks (Lee Boardman), também passaram um pouco longe do realismo. Ambos poderiam ser cotados para o núcleo traficante de Narcos sem nenhuma alteração.

Um dos méritos do diretor Toby Haynes (Black Mirror) e do roteirista James Graham merece destaque: Brexit foi idealizado para ser um filme rápido. O conteúdo teórico se faz presente de uma forma orgânica, com cenas frenéticas que envolvem o público e fazem parecer com que os personagens estejam em uma constante corrida contra o tempo. Às vezes o ritmo acelerado dá lugar a uma grande aula de mídias sociais, talvez pecando um pouco na didática exacerbada, mas se provando necessária para a contextualização do que está sendo apresentado. Em nenhum momento o longa se torna cansativo de assistir, pelo contrário, até mesmo gera momentos cômicos que podem tirar boas risadas do público.

Brexit tinha tudo para ser uma produção superficial e que não esperou o tempo devido para falar sobre um assunto muito complexo - que talvez apenas os britânicos consigam compreender com seus próprios sentimentos. Ao invés disso, o resultado foi um filme divertido, reflexivo e que traz de forma leve discussões sobre os perigos que a tecnologia pode trazer para qualquer democracia. No melhor estilo Frank Underwood, as quebras da quarta parede protagonizada pelo personagem de Cumberbatch trazem um sentimento claro: nem mesmo ele tinha noção do monstro que estava alimentando.

Nota do Crítico
Ótimo