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Crítica

Bravura Indômita | Crítica

Joel e Ethan Coen fazem um raro filme sem cinismo, fiel ao espírito do romance original

Marcelo Hessel
10.02.2011
18h30
Atualizada em
21.09.2014
14h16
Atualizada em 21.09.2014 às 14h16

O Bravura Indômita de 1969 é um anacronismo. Henry Hathaway, diretor de faroestes desde os anos 30, não aproveitou o potencial do romance de 1968 do jornalista Charles Portis em que o filme se baseia. Nos anos 60 o western revisionista, menos maniqueísta e mais crítico, já estava consumado no cinema - e a literatura de Portis se encaixa muito bem nessa tendência - mas Hathaway fez um filme classicista, suprimindo duas passagens do livro que ironizam o mito do cowboy: o desafio de tiro ao alvo e o desfecho.

Bravura Indômita (True Grit, 2010), de Joel e Ethan Coen, altera o miolo do livro mas é mais fiel ao espírito cômico de Portis. De um filme dos dois, de qualquer forma, humor é o que se espera. Ainda assim, o remake não deixa de ser uma novidade no currículo dos irmãos, que sempre trabalharam com personagens à deriva, pegos de surpresa pelo acaso, e agora têm na mão tipos que se dirigem frontal e conscientemente aos seus destinos.

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A começar por Mattie Ross (Hailee Steinfeld), garota de 14 anos que está decidida a vingar a morte do pai. Para perseguir o responsável, ela contrata um federal, Reuben "Rooster" Cogburn (Jeff Bridges). Hathaway apresenta Rooster como uma autoridade, descarregando prisioneiros de mais uma caçada. No remake, a primeira aparição do federal fica pra depois; Mattie foi procurá-lo e Rooster estava defecando na casinha.

A ideia não é ridicularizar o federal, mas eliminar a aura que o protege, como se Rooster precisasse provar, no novo filme, o seu valor a partir do zero. O teste começa de fato a partir da travessia do rio - cena que os Coen adiantam em 15 minutos, em relação ao filme de 1969.

Mostrar Rooster no seu habitat e dedicar mais tempo à relação do federal com a menina na mata é essencial para o novo Bravura Indômita. Além de acelerar a trama até este ponto, os Coen fazem uma mudança na rota em relação ao original - afastar temporariamente o terceiro protagonista, o ranger texano LaBoeuf (Matt Damon) - para fortalecer os laços do velho com Mattie. É aí que entram os momentos de nonsense dos irmãos, como a cena do urso montado. Bravura Indômita é um filme sem cinismo, embora tenha, como um legítimo Coen, a marca do absurdo.

Se o filme de 1969 é anacrônico, o que faz do novo Bravura Indômita um faroeste condizente com a sua época? O tratamento que os irmãos dão a Mattie. Ela não é só uma aspirante a pastora com passagens da Bíblia na ponta da língua, nem apenas uma muquirana com vocação para negociar gado. O remake enxerga em Mattie o desabrochar de uma mulher. Dois homens disputam a atenção dela, afinal, e o roteiro dos Coen, nestes tempos pós-feminismo, não elimina a tensão sexual dessa equação (as palmadas de LaBeouf já estavam no original, mas o diálogo à noite, em que Mattie e o ranger trocam confidências, é inédito).

A partir daqui o texto contém spoilers do final do filme.

***

Como Rooster - mesmo bêbado, mesmo caolho - não deixa de ser o "galo", o herói da história, não é difícil adivinhar quem Mattie "escolhe" no final. Primeiro, os Coen enquadram Jeff Bridges à moda antiga, como nos faroestes fordianos, só com sua silhueta contra a luz na saída da mina e na boca do poço de cascavéis. O rosto de Hailee Steinfeld iluminado no escuro com o lampejo dos disparos da arma de Rooster é um dos planos mais bonitos do filme.

O lance definitivo: ao contrário do livro e do filme de 1969, o Rooster dos Coen não usa fumo mascado para chupar o veneno da picada da mão da menina. Ao usar a boca, Bridges simbolicamente a beija. Nessa hora percebe-se que Mattie Ross está apaixonada, insinuação que o epílogo do filme, fiel ao do romance, vem comprovar. Há todo um ideal de hombridade inscrito ali. Por mais torto que seja, Rooster não deixa de ser um ícone - e é disso que os faroestes revisionistas tratam.

Bravura Indômita | Assista a quatro cenas
Bravura Indômita | Cinemas e horários

Bravura Indômita
True Grit
Bravura Indômita
True Grit

Autor: Ethan Coen e Joel Coen

Ano: 2010

País: Estados Unidos

Classificação: 16 anos

Duração: 110 minutos min

Direção: Joel Coen, Ethan Coen, Henry Hathaway

Roteiro: Joel Coen

Elenco: Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper, Dakin Matthews, Paul Rae, John Wayne, Kim Darby, Jeremy Slate, Dennis Hopper, Robert Duvall, Glen Campbell, Alfred Ryder, Strother Martin, Jeff Corey, Ron Soble, John Fiedler, James Westerfield, John Doucette, Donald Woods, Edith Atwater

Nota do Crítico
Excelente!

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