Filmes

Crítica

Kingsley Ben-Adir sublinha a vulnerabilidade de Bob Marley em One Love

Original, cinebiografia do músico foca em três anos da década de 70

Omelete
4 min de leitura
09.02.2024, às 15H10
ATUALIZADA EM 16.02.2024, ÀS 09H48
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Logo nos primeiros minutos de Bob Marley: One Love, fica claro que esta não será a sua típica cinebiografia musical. Não há a descoberta do talento, a busca por reconhecimento ou a derrocada pela fama. Não somos introduzidos a um pequeno Bob, triste pelo abandono do seu pai, sofrendo sob a dura realidade de uma Jamaica colonizada. Contrariando a expectativa de um público já acostumado com a narrativa formulaica do gênero, One Love inicia-se com um letreiro que nos insere na Jamaica de 1976, quando hits como "I Shot the Sheriff" ou "No Woman, No Cry" já existiam. É um movimento inesperado que lentamente vai desvendando seu propósito: ao contrário de procurar uma resposta para a magnitude de Marley, One Love quer humanizar seu objeto de estudo, para focar muito mais em sua vulnerabilidade do que no ícone que ele se tornou. 

É uma empreitada que tem suas perdas e ganhos. É, sim, fácil levantar a sobrancelha no início de One Love, ao perceber que as minúcias do contexto no qual Bob Marley é mostrado - a disputa política na Jamaica pós-independência, mais especificamente -, não serão fornecidas didaticamente. Na realidade, elas não serão fornecidas de modo algum. Mas One Love traz uma sensação de inovação imediata por sua recusa a seguir os passos de um verbete de enciclopédia. A escolha faz sentido com o diretor Reinaldo Marcus Green, que já havia tomado a peculiar decisão de contar a história das tenistas Williams focando em seu pai em King Richard.   

One Love se passa quase inteiramente entre 1976 e 1978, período de conflitos armados na Jamaica, mas mostra relances do passado sem forçação, através das memórias de seu protagonista. É um período frutífero para isso: em um quase exílio por causa de um atentado contra sua vida na Jamaica, o artista passa o tempo em Londres refletindo sobre as mensagens de sua música, a sua infância e o início de seu relacionamento com Rita Anderson e do seu envolvimento com o movimento rastafari. One Love, portanto, não deixa de mostrar o primeiro hit dos Wailers e nem despreza a importância da ausência da figura paterna de Bob. Na realidade, ele encontra uma maneira singela de retratar isso, que funciona em níveis variados de sucesso. 

Nada disso seria convincente sem a performance meticulosa de Kingsley Ben-Adir, que carrega com delicadeza um papel que poderia muito facilmente pesar ao caricato. A ideia de One Love, de ir além da imagem icônica de Marley, e cavocar o que há por trás de um homem que se tornou um símbolo, ajuda a atuação: Ben-Adir aborda Bob como um sujeito falho, comum, mas não por isso menos marcante. Em uma das cenas mais bonitas de One Love, quando Bob Marley encara o atirador que está prestes a atentar contra sua vida, é o brilho de hesitação em seu olhar que carrega toda a cena - e Marcus Green sabe muito bem como prolongar aquele relance para transmitir o peso de um momento que durou segundos. É uma performance singela, que captura o humano, mas não deixa de evocar o messiânico, e encontrar esse equilíbrio é uma tarefa árdua que Ben-Adir conduz com destreza. 

O que fica de fora nesta jornada é qualquer apelo político, e a escolha faz de Bob Marley neste campo um pacifista que não se alinha com qualquer um dos líderes que subiu ao palco no festival One Love. Mais do que isso, ele escolhe um rumo desinteressado nos motivos por trás das turbulências da Jamaica, o que também pode soar estranho, em uma jornada que se esquiva de se aprofundar no envolvimento da CIA naquela situação. A decisão, mesmo assim, não soa totalmente chapa branca. One Love parece dispensar assuntos que possam distrair da simples humanidade de Bob, o que explica a decisão de inserir a maconha em todas as cenas sem a menor necessidade de abordá-la como um tema. 

É condizente, portanto, que Marcus Green favoreça performances contidas de Marley em detrimento de um grande espetáculo. Talvez fosse mais tradicional iluminar Ben-Adir no palco e agigantá-lo, através da montagem, da dublagem e do movimento de câmera, para uma arrebatadora “Redemption Song”. Mas a composição é registrada em uma performance na fogueira, com o artista rodeado de sua família. Do mesmo modo que One Love pode frustrar quem espera respostas literais, a cinebiografia também não é para quem entra na expectativa de grandes números musicais. One Love é uma empreitada ousada precisamente por sua recusa em fazer o óbvio, e encontra seu charme ao fazê-lo sem embaraço. 

Nota do Crítico
Bom
Bob Marley: One Love
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Direção: Reinaldo Marcus Green

Elenco: Kingsley Ben-Adir, Lashana Lynch, James Norton

Onde assistir:
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