Cartaz de Bloodshot com Eiza Gonzalez, Vin Diesel e Sam Heughan

Créditos da imagem: Divulgação/Sony

Filmes

Crítica

Bloodshot

Filme desperdiça carisma de Vin Diesel em um emaranhado de clichês entediantes

Gabriel Avila
12.03.2020
20h10
Atualizada em
13.03.2020
11h38
Atualizada em 13.03.2020 às 11h38

A última década foi marcada pela consolidação dos filmes de super-heróis no imaginário popular. Com novas produções do gênero quebrando recordes de bilheteria e ganhando espaço em importantes premiações como o Oscar, não demorou para que os estúdios enxergassem uma mina de ouro na indústria dos quadrinhos, que cria universos em um ritmo agradavelmente abundante para aqueles dispostos a explorá-los. Com Marvel e DC Comics, as “duas grandes” editoras, já sob o guarda-chuva de grandes estúdios, coube à editoras menores como a Valiant o papel de fornecer mão de obra para o início de novas franquias. Esse novo universo chega aos cinemas com Bloodshot, que se apoia no carisma de Vin Diesel, mas joga fora qualquer traço de originalidade.

O filme conta a história de Ray Garrison (Diesel), um soldado do exército americano trazido de volta à vida pelo Projeto Espírito em Ascensão após ser morto em serviço. Ressuscitado com o auxílio de alta tecnologia, Garrison tem milhões de nanomáquinas instaladas em seu corpo, unindo fator de cura e superforça a suas habilidades militares. Assim ele se torna Bloodshot, uma máquina de matar com sede de vingança do bandido que tirou não só a sua vida, mas também a de sua esposa Gina (Talulah Riley).

No papel, Bloodshot parece a tempestade perfeita. A natureza brucutu do personagem, que, grosso modo, parece uma mistura entre Robocop e Wolverine, combina perfeitamente com a trajetória de Vin Diesel como astro de ação de pouca conversa e muita porrada. Na prática, a produção é um emaranhado de clichês que não sabe o que quer contar e apenas desperdiça seu potencial com uma história confusa que não tem muito a dizer.

Não que a origem do personagem nos quadrinhos seja um grande exemplo de originalidade, mas essa mistura previsível possibilita diferentes abordagens desde que seja mantida a ação desenfreada. Bloodshot nunca foi conhecido pela profundidade de seu texto, que geralmente gira em torno de missões impossíveis ou crises existenciais causadas pela falta de memórias verdadeiras no herói. Nem mesmo Jeff Lemire, um dos mais criativos roteiristas a surgir nos últimos anos, tentou levar o personagem muito longe dessas diretrizes. Na HQ Bloodshot: Renascido, por exemplo, o autor compensa a trama rasa com lutas e tiroteios de tirar o fôlego, algo que não acontece no longa.

A história coescrita por Jeff Wadlow e Eric Heisserer não passa de uma sucessão de contradições. Ao colocar seu protagonista em situações cada vez mais surreais - como usar farinha de trigo como arma em combate -, a dupla flerta com a ideia de abraçar a galhofa e fazer uma paródia com os clichês do gênero de ação. A oportunidade, que poderia encaixar Bloodshot no filão de um Deadpool, por exemplo, é desperdiçada.  Sempre que está a um passo de rir de si mesmo, volta a se levar a sério de uma forma inexplicável. Ao não decidir o que quer ser, o longa acaba não sendo nada além de frustrante.

O mesmo pode ser dito a respeito do elenco. Além de Vin Diesel, nomes como Eiza Gonzalez (Baby Driver), Sam Heughan (Outlander) e Guy Pierce (Amnésia) são subaproveitados, com pouco a fazer além de seguir os estereótipos. Com diálogos previsíveis e pouco espaço para ir além de apenas dar vida a clichês ambulantes, todos meramente cruzam o caminho do astro principal para cumprir tabela. A surpresa fica por conta de Wilfred Wigans (Lamorne Morris), que, com ainda menos tempo de tela, tenta salvar um texto verborrágico com uma entrega cômica que por alguns momentos arranca risos sinceros.

A maior decepção causada por Bloodshot está no quesito ação. A direção de Dave Wilson, que faz sua estreia em longas-metragens, dificulta a compreensão dos combates ao abusar de cortes rápidos. Filmadas por câmeras na mão que tremem a ponto de desnortear o espectador, as lutas não causam impacto e sequer impressionam. Nos poucos momentos em que é possível acompanhar os movimentos, entra em cena uma computação gráfica destoante de todo o resto, passando a sensação de que o longa se tornou uma cut-scene de videogame mal acabada.

Sem uma história para contar e repleto de combates decepcionantes, o filme chega ao fim sem mostrar a que veio. Sensação amplificada por um encerramento que não dá o menor indicativo a respeito do futuro de Bloodshot e seus companheiros. Difícil saber se esse foi outro furo deixado pelo roteiro ou apenas a consciência dos realizadores de que o resultado final não despertaria interesse para uma sequência. De qualquer forma, o longa é um péssimo início para o universo Valiant no cinema, que vai precisar de muito mais que um grande nome no papel principal para decolar.

Nota do Crítico
Ruim