Billie Eilish em 3D inova os filmes-concerto mesmo sem ser revolucionário
Longa dirigido por James Cameron chegou ao Brasil
Embora o gênero dos filmes-concertos comumente não ofereça muito espaço para grandes experimentações criativas por parte dos cineastas e equipes envolvidas, Billie Eilish - HIT ME HARD AND SOFT: The Tour in 3D leva às telas do cinema um registro competente de um bom espetáculo assinado por dois artistas de diferentes gerações, mas que compartilham do mesmo respeito pelo audiovisual.
Com co-direção assinada pelo consagrado James Cameron e filmado com câmeras de alta tecnologia da Lightstorm Entertainment – a mesma produtora de Cameron usada em Avatar – o longa nos leva até o palco da cantora Billie Eilish durante um percurso de quatro shows realizados em Manchester na Inglaterra, onde podemos presenciar sua inegável presença de palco e realizar uma tímida porém mais intimista visita aos bastidores da turnê.
O longa se sustenta, sobretudo, no excelente concerto conduzido por Eilish – aspecto que, em qualquer análise de um filme-concerto, não pode ser ignorado. Afinal um show ruim dificilmente renderia um bom filme, ainda que fosse dirigido pelo mais brilhante cineasta de Hollywood. Ao percorrer diferentes momentos da carreira da artista, incluindo o aclamado When We All Fall Asleep, Where Do We Go?, de 2019, o longa apresenta uma performance à altura de uma artista que compreende e respeita profundamente sua arte, seu público e a arquitetura de um espetáculo. A iluminação conversa com as canções, as canções dialogam com os fãs e então a arena se transforma em um organismo único, inteiramente conduzido por Eilish.
Por outro lado, a participação de James Cameron não serve apenas para acrescentar um grande nome de Hollywood à assinatura do projeto, mas também para oferecer uma nova perspectiva ao gênero. O show é registrado por câmeras 3D posicionadas no palco de modo orgânico, quase como uma extensão natural da própria concepção do espetáculo. Os enquadramentos vão da grade que separa o palco do público — onde os fãs mais exaltados cantam e gritam a plenos pulmões — até ângulos que parecem mergulhar no instrumento de Solo Smith.
Som e imagem se articulam, assim, numa experiência guiada pelas melodias de Billie Eilish, resultando em um notável impacto audiovisual. Essa imersão é potencializada pela tecnologia da Lightstorm Entertainment e pela mixagem em Dolby Atmos, que busca recriar com precisão a acústica da Co-op Live, em Manchester. Mas o que torna o longa diferenciado, acaba se tornando também sua própria armadilha.
Embora o 3D assinado por Cameron seja tecnicamente impressionante, sustentar esse efeito ao longo de quase duas horas de filme pode se tornar cansativo. Ao invés de ampliar a imersão do concerto, o recurso inovador acaba cobrando um preço físico do espectador, como uma certa fadiga visual – especialmente para aqueles que já utilizam óculos de grau.
Há também uma frustração inevitável quanto à disponibilidade da obra. James Cameron é um ferrenho defensor da experiência cinematográfica, o que sinaliza que o longa não chegará ao streaming tão cedo. Somado ao atual cenário de preços no cinema brasileiro, esse fator aprofunda a exclusão de uma parcela do público. Cria-se, assim, uma divisão clara: para quem não dispõe de salas IMAX 3D ou Dolby Cinema, a versão convencional em 2D perde boa parte do impacto planejado, restringindo o potencial pleno do projeto a uma parcela restrita de espectadores e a condições técnicas muito específicas.
Os momentos de bastidores, embora não cheguem a ser pontos negativos, também não sustentam o fôlego da narrativa. Apesar de ser gratificante presenciar o carinho de Billie Eilish por seus fãs — aspecto bem explorado nesta parte da obra —, somos conduzidos a uma entrevista 'intimista' com James Cameron que recicla tópicos saturados. A conversa toca em pontos que a cantora já detalhou inúmeras vezes, como o uso de roupas largas ou o fato de fazer a própria maquiagem. Ainda assim, graças à natureza magnética de Billie, esses trechos funcionam como um acalanto e um respiro necessário em meio à frenética energia do show.
O longa ainda guarda alguns bons momentos durante seu percurso, como a participação breve porém marcante de Finneas, irmão da cantora. Mais afastado dos palcos que costuma dividir com Billie, desta vez o produtor se encontra focado em sua carreira solo e em outros projetos, fazendo com que sua participação no show aqui se torne significativamente mais emocionante – especialmente dentro do contexto apresentado no início do filme onde Eilish diz sentir muita falta de seu companheiro de estrada.
O filme está longe de ser uma experiência revolucionária, mas talvez seja um passo importante para a renovação de um gênero pouco explorado criativamente: o filme-concerto. Seja você fã da cantora ou apenas um entusiasta de espetáculos audiovisuais — e caso tenha os meios para testemunhar a experiência em uma sala com a estrutura técnica necessária —, HIT ME HARD AND SOFT: The Tour in 3D é uma boa pedida. Especialmente para aqueles que, assim como eu, sempre quiseram ir a um show de Billie Eilish, mas nunca tiveram a oportunidade.
Billie Eilish: Hit Me Hard and Soft - The Tour in 3D
Billie Eilish: Hit Me Hard and Soft - The Tour in 3D
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