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Crítica

Besouro Verde | Crítica

O primeiro grande filme ruim de 2011

Érico Borgo
17.02.2011
19h39
Atualizada em
21.09.2014
14h16
Atualizada em 21.09.2014 às 14h16

Besouro Verde (The Green Hornet, 2011) é um investimento tão arriscado que é surpreendente que ele tenha saído do papel. O filme adapta para as telas um programa de rádio de 1936, que na década de 1960 mais tarde migrou para a televisão, versão lembrada por saudosistas e arqueólogos da telinha especialmente por ter lançado o futuro astro das artes marciais Bruce Lee (1940-1973).

Tentando recriar esse sucesso para as novas gerações, está justamente um desses entusiastas, o ator bonachão Seth Rogen, que escreveu o roteiro, produziu o filme e o protagonizou. Mas Rogen também é um fator de risco. Seu sucesso no cinema está intimamente ligado ao subgênero da "comédia de maconheiro", papel que ele faz como ninguém. Nas poucas vezes que ele arriscou-se fora de sua zona de conforto, fracassou em bilheteria.

Besouro Verde

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O entra-e-sai de diretores (o penúltimo, Stephen Chow, o deixou por diferenças criativas com os roteiristas e produtores) acabou com a entrada de Michel Gondry, o cultuado e esquisitíssimo cineasta francês de comédias totalmente inconvencionais, como Rebobine Por Favor e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança, em seu primeiro blockbuster hollywoodiano - outro elemento que deveria ter assustado a Columbia Pictures. Para completar, a responsabilidade de achar o "próximo Bruce Lee" também pesou, com Jay Chou assumindo o papel de Kato - com um inglês ininteligível e uma das piores atuações da década (prova de que não é possível concentrar-se em emitir sons que você sequer entende o significado e atuar ao mesmo tempo).

A conjunção de riscos e impossibilidades resulta exatamente no que se esperaria de um filme assim, uma aventura desconjuntada, com direção terrível de atores, diálogos absurdamente ruins e situações completamente inverossímeis. Note como o herdeiro magnata Britt Reid (Rogen) decide, do dia para a noite, sem qualquer motivação externa digna de uma "jornada do herói" que se preze, combater o crime, só porque descobriu que o barista (!) e mecânico de seu falecido pai sabe lutar kung-fu e construir mísseis e supercarros. E o pior: decide fazê-lo disfarçado como um vilão. Aos puristas, fica a ressalva de que nem tudo que fez sentido para a inocente audiência da década de XX funciona hoje em dia... Sem falar na contratação da secretária vivida por Cameron Diaz, imposição de estrutura de roteiro atual (o indispensável "interesse amoroso" que vai dividir os heróis), que só serve para atrasar a trama principal e arrastar o filme.

Completando o elenco principal, Christoph Waltz se esforça como o vilão em crise, Chudnofsky. Depois de um encontro com um criminoso da moda (James Franco em participação especial), o antagonista decide assumir uma persona mais extravagante. Cria uma frase de efeito, começa a vestir apenas vermelho e torna-se "Sanguenofsky". A cara-de-pau do ator dá certa dignidade às suas cenas.

Com inéditos 80 milhões de dólares à sua disposição, Gondry despiroca na direção. Sua solução para a "Kato Vision", a maneira como o ajudante do Besouro Verde enxerga situações de risco, tem certo estilo, mas não empolga. Guy Ritchie já havia feito algo assim ano passado, em Sherlock Holmes, pra ficar apenas em uma citação bem recente. Para piorar, Jay Chou sabe lutar muito bem - e encher a tela de firulas só mascara a qualidade pela qual ele foi contratado. Que saudade do soco de uma polegada...

Quando tudo parecia perdido para a Columbia, que viu seu investimento fracassar em hype (a Comic-Con o saudou com cara de "WTF?"), o estúdio sabiamente optou por lançá-lo (ou melhor, largá-lo) em um dos menos concorridos fins de semana do ano, o limbo cinematográfico de janeiro. Estratégia acertadíssima. O milionário "Bisonho Verde" emplacou com o grande público dos EUA, carente de opções - já que aqueles paradões "filmes de Oscar" ocupavam os multiplexes -, e até rendeu um troco, embalado pelos ingressos mais caros do tosco e absolutamente dispensável 3-D estereoscópico.

É tudo tão ridículo que, depois do choque inicial, o filme - pasme! - até começa a funcionar. É como se ele pedisse do público a suspensão, não da descrença, mas de qualquer critério. Para quem atende ao apelo sedutor do trash, o clímax é antológico. Acontece perante os olhos como um daqueles pesadelos engraçados, em que as cenas, desencontradas, se sucedem, uma mais estapafúrdia que a outra. A essa altura o cérebro está tão embotado que as piadas começam a entrar e as risadas a fluir. Até Seth Rogen parece um bom herói de ação a bordo do incrementado carro Beleza Negra. Besouro Verde deve consagrar-se, assim, como o terceiro ato mais hipnótico do ano. Pena que quando começa a ficar bom, termina.

Não que eu queria ver uma sequência, que fique claro.

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Nota do Crítico
Regular