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Crítica

Berenice Procura | Crítica

Filme estrelado por Cláudia Abreu flerta com drama e o suspense, tenta estabelecer uma narrativa de redenção, mas fica com tudo pelo meio do caminho

Henrique Haddefinir
13.04.2018
19h29
Atualizada em
18.04.2018
02h03
Atualizada em 18.04.2018 às 02h03

A sinopse de Berenice Procura (2017) apresenta a história da taxista Berenice (Cláudia Abreu) como um suspense. Vista por alto, a trama pode mesmo ser interpretada dessa maneira. Berenice é uma mulher absorvida pelo trabalho, que vive sendo acusada de negligência pelo filho e pelo ex-marido (com quem ainda vive); e que vê sua vida ganhar uma perspectiva desafiadora quando a morte da transexual Isabelle (Valentina Sampaio) faz com que ela enfrente não só o que vem sendo ignorado na própria vida, como também a impulsiona a investigar quem teria assassinado a moça.

Adaptado da obra de Luiz Alfredo Garcia-Roza, o filme já tinha sido anunciado pelo diretor Allan Fiterman como um filme que “se interessava por Berenice mais como mulher do que como heroína” e a sessão exibida como fechamento da programação do Rio2C deixou claro que o caminho da adaptação é exatamente esse. Durante quase metade do filme, Allan está tão interessado em desenvolver as complexidades familiares e pessoais da protagonista, que inevitavelmente deixa a pergunta: quando Berenice vai começar a procurar?

De fato, a grande qualidade do longa está no seu esforço em ser mais que um suspense. Ele se esmera em planos longos, em ângulos belos, cheios de fusão entre luz e recorte, revelando uma sensibilidade notória e quase lúdica. O contraste com a crueza de algumas escolhas visuais estabelece as contradições da produção: Berenice Procura se vende como um suspense, mas não tem os códigos característicos do gênero. Soa como um drama pensado muito mais artisticamente do que comercialmente, mas desenvolve um roteiro cheio das obviedades clássicas dos “filmes de superação” hollywoodianos.

Berenice Não Encontra

Em determinado momento da trama, Berenice recolhe um peixe morto dentro do aquário de casa. É uma metáfora interessante para tudo que vem morrendo naquele lar. Casada com um repórter machista (vivido por Eduardo Moskovis) e com um filho que está descobrindo a própria sexualidade, Berenice é apresentada como uma mulher que vive a conformidade de uma circunstância, mas que não está confortável com ela. A morte de Isabelle (com quem o filho da protagonista tem uma ligação) obriga todos naquele lugar a se confrontarem com as latências que vinham sendo ignoradas e é só a partir daí que a trama começa a andar.

Berenice Procura acessa todos os caminhos clássicos de um roteiro de superação:  ela vai - através da pseudo-investigação que começa (muito subitamente, vale ressaltar) -  ter coragem de enfrentar o marido machão, que ela vai se aproximar do universo do filho, que ela vai “se disfarçar” para conseguir alguma informação, que ela vai se envolver com alguém que faz parte da vida da vítima... As escolhas visuais da direção são belíssimas, mas o roteiro é ingênuo e não compreende a responsabilidade do que estabeleceu no título e na sinopse: Berenice quase não procura e quando encontra, é exatamente quando não estava procurando.

O elenco é espetacular, mesmo que seus personagens sejam estereotipadíssimos. Não é que aqueles não sejam tipos comuns (o estereótipo é uma verdade cheia de arestas), mas o longa não se esforça muito em dimensionalizar nenhum deles. Vera Holtz vive uma dona de boate vilanesca, mas devora todas as cenas em que está. Moskovis é a escolha perfeita para viver um machão incorrigível que é construído com um propósito tão específico que se torna indisfarçável. Valentina protagoniza os melhores momentos do longa (que são os flashbacks do dia de seu morte) e a sequência em que canta no concurso de beleza é, sem dúvida, a mais poderosa do filme. Já Cláudia Abreu interpreta Berenice com uma extrema discrição. A atriz é cheia de carisma, mas sua construção da protagonista fica num lugar confortável, televisivo, não chega a ser errado, mas não é inesquecível.

A trama não tem grandes saltos, o suspense não é estabelecido de verdade em momento algum e a direção preocupada com belos ângulos se esquece de provocar o espectador com o próprio “quem matou” que construiu. Por outro lado, as questões humanas são fortes na dramaturgia (não deixa de ser interessante que o lar mais ajustado da história seja aquele de onde Isabelle saiu), os posicionamentos transgêneros são corretamente expostos (a palavra “traveco” aparece várias vezes para demarcar a pejoratividade e a marginalização da comunidade) e o final, embora óbvio, é coerente. O grande problema, contudo, é que depois de apenas flertar com tantos gêneros, Berenice Procura termine frustrando o espectador com uma série de pontas soltas, que o final precoce não resolve com a justificativa de ser apenas “lindo”.

Enfim, o filme não é um suspense, embora se diga um. Não é somente um drama, embora se construa como tal. Não procura tanto assim; e talvez seja exatamente por isso que ele não encontra.

Nota do Crítico
Bom