Belfast

Créditos da imagem: Universal Pictures/Divulgação

Filmes

Crítica

Belfast encontra seu brilho na vontade de heroísmo

Infância do diretor Kenneth Branagh inspira drama cheio de graça

Omelete
4 min de leitura
Julia Sabbaga
10.03.2022, às 17H06
ATUALIZADA EM 10.03.2022, ÀS 17H20
ATUALIZADA EM 10.03.2022, ÀS 17H20

Se a comparação entre Belfast e Roma parece imediata - no mínimo porque são dois filmes em preto e branco, com nomes de cidades, que contam da infância de seus diretores sob a perspectiva infantil -, a analogia acaba logo nos primeiros minutos do novo filme de Kenneth Branagh. São caminhos semelhantes, sim. Mas enquanto Roma é um espetáculo grandioso que insiste em tensões de forma latejante, Belfast é um filme pequeno, contido, e meloso. Nada disso é um problema. A força de Belfast, inclusive, está em sua simplicidade.

E não existe nenhum constrangimento aqui em se apoiar no açucarado. Belfast é embalado por músicas de Van Morrison, e tem até direito a um número musical com nada menos que “Everlasting Love”. Seu olhar infantil é daqueles que ainda não compreenderam os perigos do mundo, e não há um arco que o faça encarar a realidade como ela é. Apesar de cercar sempre o conflito religioso que se passa na Irlanda do Norte nos anos 1960, Belfast nunca escapa de uma visão restrita. Os “Troubles” são pano de fundo, e um contexto que norteia cada uma das decisões dos personagens de Belfast, mas o pequeno protagonista Buddy não entende o que se passa aqui. E mantendo-se fidedigno ao seu olhar, Belfast também não se preocupa em detalhar demais. 

O conflito principal, portanto, não é o racha na sociedade em que Buddy e seus familiares vivem. Nomeados também pelo garoto, chamados de Pa, Ma, Vô e Vó, e o irmão Will, a família de Buddy é seu mundo inteiro, e complementados por sua amiga Moira e seu crush, Catherine, formam o universo do qual Buddy é o centro. Existem fiapos políticos aqui, inclusive pela religião de Catherine ser católica enquanto Buddy é protestante, e, claro, pelas revoltas nas ruas desde a primeira cena. Mas o principal efeito deste conflito para o nosso protagonista é ser assombrado pelo sermão de um padre, e passar as semanas de 1969 percebendo-se em uma bifurcação. A ameaça de deixar seu mundo para trás e seguir para a Inglaterra é uma que aterroriza Buddy, mas nunca consegue se formar direito em sua mente. 

A perspectiva de futuro incerto vem de Pa, que trabalha em Londres e volta aos finais de semana, e, endividado, passa parte do ano buscando convencer Ma a deixar a vizinhança de Belfast. São conversas ouvidas de fundo, e enquadradas de modo cativante por Branagh, que flutua entre diferentes estilos de direção sem nunca abandonar o ritmo que é ditado pelos sentimentos. Deste modo, se a câmera não para, é porque a inquietação de Buddy está na superfície. Se o quadro se divide em pequenos cantos da casa, é porque vemos pequenos relances de interações secretas. 

E é aqui que Branagh brilha, porque em seu enquadramento ele transmite tudo que Ma e Pa encapsulam. Na mãe, está a figura de responsabilidade, alta, determinada, sempre ereta. Seu pai, a figura heroica principal, é visto de baixo, ou no centro, e a analogia aqui, longe de Roma, está nas produções que vemos Buddy acompanhando pela TV ou no cinema. Pode não ser muito sutil, afinal, as cores na vida do garoto só aparecem em expressões artísticas como estas, mas existe um apelo na visão inocente do próprio diretor.

É de Matar ou Morrer, filme do qual Belfast empresta diversas referências, que vem a grandeza de Pa. Para Buddy, seu pai é o xerife de Gary Cooper, preso na escolha entre enfrentar o conflito ou abandoná-lo - e a analogia é tão clara que o maior confronto armado de Belfast inclui o tradicional impasse inspirado nos faroestes, e é embalado pela icônica “High Noon”. Apesar de ser o principal, este não é o único anseio de heroismo em Belfast, que passa também por O Homem Que Matou o Facínora e faz até aceno ao amor do diretor por Thor no que pode ser chamado, facilmente, de easter egg.

Enquanto o novato Jude Hill rouba a cena como o pequeno Buddy, é nos heróis materno e paterno de Caitriona Balfe e Jaime Dornan que Belfast se destaca. Isso porque não somente os dois estão afiados em cada segundo de sua performance - ela em quieto desespero e ele em serenidade autoritária -, mas também porque a escolha de dois atores menos bombásticos para os pais de Buddy é certeira. Sem estrelato, é a humanidade e charme discreto da dupla que dá maior valor à direção de Branagh, capaz de engradecê-los com a câmera, e a combinação cria uma sinergia entre elenco e direção rara de encontrar.

Pesado no tema e leve na abordagem, Belfast é mais interessado na magia do olhar do que na tragédia de seus acontecimentos, mas também pulsa certo sentimento de culpa. Em seus últimos momentos, a escolha da família de Buddy é colocada como poesia nos lábios de Vó, e encerra Belfast com o sentimento de uma assombração nos olhos de seu diretor. Branagh desobedece o último conselho da personagem de Judi Dench, mas o faz com respeito e como tributo, pelos rumos determinados por forças além de nosso controle. 

Belfast
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Belfast

Ano: 2021

País: Reino Unido

Duração: 98 min

Direção: Kenneth Branagh

Roteiro: Kenneth Branagh

Elenco: Ciarán Hinds, Jamie Dornan, Judi Dench, Caitriona Balfe

Nota do Crítico
Ótimo

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