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Crítica

Beatriz | Crítica

Apesar da elegância, filme de Alberto Graça não tem fôlego ou viço

Rodrigo Fonseca
03.10.2015
12h05
Atualizada em
29.06.2018
02h37
Atualizada em 29.06.2018 às 02h37

Mesmo tendo uma elegância (à moda europeia) atípica para padrões cinematográficos contemporâneos, em sua observação sobre os desvarios do querer, Beatriz, primeiro longa-metragem de ficção em competição na Première Brasil do Festival do Rio 2015, chega ao fim de seus 103 minutos sem fôlego e sem viço. Tropeços da direção num roteiro reiterativo tiram o vigor desta reflexão sobre os excessos da paixão que marca a volta ao cinema do realizador Alberto Graça, distante do écran desde o belo O Dia da Caça (2000). Seu regresso se dá pelas vias do drama romântico, um drama de dor, que se instala numa tradição há tempos deixada para trás por seus pares diretores brasileiros, mais em voga nos anos 1970, por produções (hoje pouco citadas) como À Flor da Pele (1977) e Inquietações de uma Mulher Casada (1979). 

Estes eram filmes sobre angústias existenciais deixadas pela desesperada necessidade da pertença do ser amado: situação vivida pela protagonista da produção pilotada por Graça e defendida com raça por Marjorie Estiano. Em Beatriz, ela, personagem-título, é uma advogada que larga o Direito e o Brasil para se mudar com o marido jornalista, Marcelo (Sérgio Guizé) para Lisboa. Lá, onde ele vive escrevendo contos eróticos para uma revista, o casal esboça um futuro, abalado por uma gravidez que Beatriz cultua e Marcelo despreza. As diferenças quanto a gestação são apenas parte dos problemas, cujo epicentro é a decisão do marido de largar o trabalho e se dedicar à escrita de um segundo romance, sobre ciúmes. A matéria-prima é a própria experiência dele com a mulher, que vinha sendo - antes de ela engravidar - apimentada por jogos eróticos, calcinhas tiradas na rua, transas em locais públicos.

Ao descobrir o conteúdo do livro, Beatriz tenta fornecer cada vez mais subsídios dramatúrgicos a seu bem-querer, submetendo-se a experiências onde o sexo é senhor e o amor, um reles criado. Em paralelo, o editor do romance sugere uma encenação para o teatro dos textos de Marcelo, o que rende para o filme de Graça uma espécie de plano paralelo, metalinguístico, como um espelho para os sentimentos e sensações de seu par amoroso. Essa relação especular, na montagem, acaba se tornando supérflua, sem revelar nada que o plano principal da trama já não diga. O mesmo se dá com o universo de coadjuvantes que giram feito satélites na órbita de Beatriz, fazendo apenas engordurar uma narrativa com tonalidade dramática suficiente para dispensar elementos acessórios. Os elementos excedentes (amigos e colegas, entre elas uma scort girl espanhola) apenas distraem o espectador e não chegam a se consolidar como figuras dinâmicas, capazes de afastar Marcelo e Beatriz de seus conflitos internos.

Apesar do talento inegável de Guizé, o ator (um dos melhores de sua geração hoje) não consegue extrair tridimensionalidade de seu escritor atormentado por feridas do próprio egoísmo. Estiano também encara dificuldades em diálogos (por vezes) artificiais, mas alcança o tamanho do abismo em que Beatriz se encontra. Na forma, o filme de Graça patina na edição, mas preserva seu frescor na fotografia de Rodrigo Monte, que registra e realça o esplendor das paisagens portuguesas, sobretudo na bela sequência final.

Nota do Crítico
Regular