Cena de A Bruxa dos Mortos: Baghead (Reprodução)

Créditos da imagem: Cena de A Bruxa dos Mortos: Baghead (Reprodução)

Filmes

Crítica

Baghead é horror meia-boca com boas ideias sobre propriedade e patriarcado

Filme tem dificuldades para estabelecer atmosfera e manter o espectador engajado

Omelete
4 min de leitura
05.02.2024, às 16H55

No cinema há pouca coisa mais frustrante do que perceber que um filme está cheio de boas ideias, mas não tem a menor ideia de como integrá-las a uma narrativa realmente instigante para o espectador. A Bruxa dos Mortos: Baghead é um desse filmes, uma fábula de horror que busca vasculhar os aspectos mais sufocantes do conceito de propriedade, da ânsia humana de ter algo que pertença a si, que está na fundação mais básica da sociedade moderna e do capitalismo. O que o filme argutamente encontra ao fazer essa exploração, inclusive, é uma linhagem patriarcal que construiu e lutou para manter essa ordem que os beneficiava, não se importando com quem precisava ser trancado no porão para isso.

A nossa protagonista, Iris (Freya Allan, a Ciri de The Witcher), é de certa forma o elo feminino que quebra essa corrente na contemporaneidade. Ela herda do pai (Peter Mullan), um sujeito que não vê há anos, um bar caindo aos pedaços em um bairro quase abandonado de Berlim. Mas a propriedade vem com uma hóspede, a titular Baghead, uma bruxa capaz de incorporar pessoas mortas quando entra em contato com um objeto que pertenceu a elas. Iris logo descobre que o pai explorava o poder da bruxa, cobrando 2 mil euros dos enlutados que batiam à sua porta por dois minutos de papo com algum falecido - até porque, estourado esse tempo, a bruxa toma o controle e se torna praticamente invencível.

A trama é baseada em um curta-metragem também chamado Baghead, lançado em 2017, mas o esforço para esticar o conceito de 15 minutos para 1h30 é bem escondido por uma edição ágil assinada por Jeff Betancourt (O Grito). No primeiro ato, a montagem cheia de paralelos e cortes secos de Betancourt é o que mantém o espectador alerta durante o estabelecimento da premissa. Feito isso, o restante do filme se mostra salpicado de alusões temáticas que estabelecem o ponto de vista da história - com pouquíssima sutileza, mas até aí tudo bem. É Betancourt, por exemplo, quem insiste em cortar o tempo todo para as fotos amareladas na parede do corredor que dá para o porão onde vive Baghead, todas retratando algum homem com cara de empreendedor vitoriano em frente a uma parede de tijolos - os antepassados de Iris, ex-carcereiros da bruxa.

É nesse pique, também, que os roteiristas Bryce McGuire (Mergulho Noturno) e Christina Pamis introduzem o personagem Neil (Jeremy Irvine), um viúvo que atormenta Iris a fim de poder usar Baghead para falar com a esposa, mas que esconde alguns segredos sobre estas e outras relações de sua vida. Irvine, mais conhecido por seu papel de estreia no cinema (Cavalo de Guerra, de Steven Spielberg), mostra ter potencial dramático inexplorado ao construir Neil no limiar perfeito entre marido esfarrapado pelo luto e garoto rico mimado, insidiosamente perigoso. O olhar arredio e os movimentos bruscos do ator funcionam principalmente para dar mais graça à reviravolta que movimenta o terceiro ato do filme e que, apesar de previsível, o conduz para uma ironia dramática bem interessante.

Pena que, para chegar lá, o espectador precise aguentar as escolhas acachapantemente insossas do diretor Alberto Corredor, único nome do curta-metragem que foi carregado para a versão em longa. Ao lado do diretor de fotografia Cale Finot (O Quarto Secreto), Corredor faz de Baghead um desfile interminável de oportunidades estéticas perdidas - eles se recusam a explorar a curiosa ambientação de sua história, por exemplo, fazendo do bar empoeirado que Iris herda e de seu porão abarrotado de itens descartados um cenário prosaico, que só existe para o sentido funcional da trama. Isso deixa o longa órfão de um elemento que faz toda a diferença no terror: uma atmosfera convincente.

O lugar onde mora Baghead, que o texto nos diz estar infestado por suas intenções malignas e pelas obsessões ainda mais perturbadas daqueles que a aprisionaram, não evoca nada disso. De forma semelhante, o único esforço do filme para fazer a jornada de Iris em direção ao local que será sua perdição parecer sinistra reside em algumas tomadas protocolares em que a câmera é posicionada no canto do teto, observando a protagonista de longe, como um espírito pervertido que flutua por ali, enquanto ela identifica o corpo do pai ou sobe as escadas do escritório de advocacia responsável pelo seu testamento. É muito pouco para alimentar o apetite do fã de horror, e ainda menos suficiente para justificar a boa vontade do espectador médio.

Baghead, assim, acaba se tornando um passeio entediante entre uma boa ideia narrativa e outra, incapaz de conjurar um filme decente para colocá-las. No fim das contas, o gosto amargo que ele deixa na boca é muito fácil de identificar: este é, afinal, um filme de horror sem nenhum tesão pelo horror da história que quer contar.

Nota do Crítico
Regular
A Bruxa dos Mortos: Baghead
Baghead
A Bruxa dos Mortos: Baghead
Baghead

Ano: 2023

País: Reino Unido

Duração: 94 min

Direção: Alberto Corredor

Roteiro: Christina Pamies, Bryce McGuire

Elenco: Peter Mullan, Freya Allan, Jeremy Irvine

Onde assistir:
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