Cena de Baby (Reprodução)

Créditos da imagem: Cena de Baby (Reprodução)

Filmes

Crítica

O ponderado Baby traz Marcelo Caetano de volta à SP dos marginalizados

Filme exibido em Cannes mostra amadurecimento do cineasta de Corpo Elétrico

Omelete
3 min de leitura
22.05.2024, às 16H22.

Faz sete anos desde que Marcelo Caetano estreou na direção de longas-metragens com Corpo Elétrico, um retrato sinuoso e enérgico (alguns diriam, elétrico) da juventude queer trabalhadora de São Paulo. Não é exatamente surpreendente que nesse período, que abraçou uma gestão Jair Bolsonaro e uma pandemia de covid-19, entre milhares de outras transformações no cenário cultural e social brasileiro, o cineasta tenha passado de um artista impulsivo, cheio de sentimentos que sentia gana de colocar em tela, para um contador de histórias considerado, até um pouco comedido. É o que mostra Baby, que estreou na Semana da Crítica do Festival de Cannes 2024 trazendo uma visita renovada, mas muito mais ponderada, à São Paulo dos marginalizados.

Essa nova toada começa já na seleção da narrativa, muito mais específica do que a de Corpo Elétrico. Baby é a história de Wellington (João Pedro Mariano), que assume o apelido do título quando é liberado da Fundação Casa e introduzido ao mundo dos garotos de programa por Ronaldo (Ricardo Teodoro), um veterano da profissão que ele conhece em um cinema pornográfico. Em pouco menos de 1h50 de filme, o roteiro de Baby - assinado por Caetano e seu colaborador habitual, Gabriel Domingues - passeia quase metodicamente pelas armadilhas e negociações morais da atividade profissional de seus personagens, pelas margens em que eles são obrigados a transitar por causa de uma estrutura social que não os apóia, e pelos sonhos que eles alimentam.

Na tela, o resultado é uma jornada de progressão um pouco previsível, mas também envolvente pela aliança que cria entre o espectador e os personagens. Caetano conservou, de Corpo Elétrico, a habilidade de se colocar ao lado de seus protagonistas, empreendendo os passos por vezes difíceis de suas histórias ao lado deles. A fotografia, assinada por Joana Luz (Amor Líquido) e Pedro Sotero (Bacurau), assim como a montagem de Fabian Remy (Filho da Mãe), criam um filme cheio de potências estéticas discretas - atenção para o uso de espelhos em todos os ambientes domésticos da trama, refletindo o narcisismo e a traçagem de paralelos entre as situações dos personagens -, mas também muito dedicado à imersão do espectador naquele mundo tão estrangeiro, e ao mesmo tempo tão próximo.

Para o paulistano, principalmente, a experiência de assistir à Baby é a de adentrar em um drama que normalmente acontece ao seu redor, na periferia das correrias do dia a dia, em um cruzamento de narrativas humanas ao qual à metrópole brasileira é tão hostil, e ao mesmo tempo tão condutiva. Caetano reserva a si a prerrogativa de desvendar as emoções envolvidas nessas histórias, tão frequentemente presas no paralelo entre a centralidade (elas acontecem, afinal, no coração da maior cidade da América Latina) e a marginalidade. É o outro que está logo ali, e ao mesmo tempo tão distante, que Baby retorna à sua posição de direito ao nosso lado, em pé de igualdade.

Amadureceu também o trabalho de Caetano com seus atores. Em Corpo Elétrico, a naturalidade das performances já evocava a identificação com o espectador e a imersão no universo do filme, mas em Baby essa naturalidade evolui para uma intimidade que se manifesta mais entre os atores do que deles com a câmera. A química entre Mariano e Teodoro, os protagonistas do filme, não só é palpável em uma dimensão física como ultrapassa essa barreira para evocar uma cumplicidade e uma ternura que define os personagens como nenhum diálogo do filme seria capaz de fazer. Na aliança do conhecimento das angústias e carências um do outro, eles encontram uma proteção mútua que às vezes esbarra na obsessão, mas que é melhor do que a insegurança de estar só.

Baby se permite a ambiguidade desse pacto entre os dois, assim como se permite equilibrar, com muito mais parcimônia do que seu antecessor, os momentos de vividez e de tragédia. O resultado é um filme menos celebração e mais consideração - mas igualmente envolvente, e sem dúvida igualmente necessário.

Nota do Crítico
Ótimo
Baby (2024)
Baby (2024)

Ano: 2024

País: Brasil/França/Holanda

Duração: 107 min

Direção: Marcelo Caetano

Roteiro: Marcelo Caetano, Gabriel Domingues

Elenco: Ricado Teodoro, João Pedro Mariano, Bruna Linzmeyer, Ana Flavia Cavalcanti

Onde assistir:
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