Cena de Aya e a Bruxa

Créditos da imagem: Studio Ghibli/Divulgação

Filmes

Crítica

Aya e a Bruxa é novo fracasso de Goro Miyazaki no Studio Ghibli

1ª animação em CGI do estúdio é decepção visual e narrativa que nega legado da marca

Eduardo Pereira
03.09.2021
19h03

Não deve ser fácil ser Goro Miyazaki. Sobre os ombros do cineasta de 54 anos pesam um sobrenome que é sinônimo de alguns dos melhores filmes de todos os tempos, além de decisões que devem moldar o futuro do lendário Studio Ghibli, provavelmente a maior referência em animação japonesa no mundo. Primogênito do octogenário escritor, animador, diretor de cinema, roteirista e artista de mangá Hayao Miyazaki, Goro inicialmente decidiu trilhar um caminho profissional diferente, formando-se paisagista e trabalhando na área por anos. À revelia da vontade do pai, eventualmente voltou atrás e fez sua estreia no cinema dirigindo Contos de Terramar (2006), um dos lançamentos mais divisivos e criticados do estúdio, até hoje. De Hayao, recebeu um bilhete que lia: "Foi feito honestamente, então foi bom". Mas ficou famoso entre fãs do veterano cineasta o vídeo em que ele aparece abandonando a pré-estreia do longa na metade para fumar um cigarro, descontente.

A relação conflituosa em meio às produções do Studio Ghibli foi eventualmente amenizada com o lançamento de Da Colina Kokuriko (2011), que viu Goro retornar à direção, agora em uma trama mais intimista e histórica. Trabalhando ao lado do pai, que assinou o roteiro em quatro mãos com Keiko Niwa, o cineasta pôde amadurecer seu domínio de ritmo e tom, entregando um título sólido, ainda que pouco inspirado, ao panteão de produções do estúdio. A confiança estabelecida a partir do projeto foi o bastante para que Hayao entregasse nas mãos do filho a adaptação de Tesourinha e a Bruxa, livro da escritora britânica Diana Wynne Jones, responsável também pela obra homônima que inspirou o cultuado filme O Castelo Animado (2004). Confrontado com a escolha entre repetir o pai ou buscar algo novo para si e para o Studio Ghibli, Goro decidiu fazer do projeto o primeiro filme em animação 3D do estúdio. Opção corajosa, mas absolutamente equivocada.

Lançado originalmente na TV japonesa, Aya e a Bruxa (no original, Āya to Majo, e Earwig and the Witch em inglês) chegou ao Brasil no dia 1º de setembro, na Netflix, sem localização ou sequer título disponíveis. Em menos de 12h, foi retirado do catálogo, antes de qualquer anúncio ou explicação. Em nota, a assessoria da Netflix afirmou ao Omelete não ter informações sobre o ocorrido.

Não é necessário ver mais do que cinco minutos do filme, o terceiro longa-metragem dirigido por Goro sob o teto do Studio Ghibli, para notar o resultado genérico que se deu da tentativa de traduzir o renomado estilo de animação do estúdio ao CGI. As expressivas caras e bocas dos personagens, os cenários profundos e deslumbrantes, até a comida tradicionalmente magnética nos desenhos japoneses, ficam sem peso, vida ou apelo emocional em meio a uma paisagem digital de orçamento insuficiente. É o início de um monólogo mental que dura todos os 83 minutos do filme, indagando constantemente o porquê da troca entre uma assinatura visual única e inimitável por uma tentativa de repetir a Disney e a Pixar que chega mais perto das infames produções da Video Brinquedo, Os Carrinhos (2006) e Ratatoing (2007).

O visual não é dos mais fortes e a condução da história também coloca Earwig and the Witch na briga pelo título de pior produção do Studio Ghibli. A trama é simples, mas estimulante, o que explica o interesse de Hayao em uma adaptação do livro: na Inglaterra dos anos 1990, uma bruxa deixa sua filha, ainda bebê, aos cuidados de um orfanato. Sem saber de suas origens, a menina, Aya, cresce e se adapta muito bem ao lar provisório. Um belo dia, entretanto, uma poderosa bruxa e seu companheiro misterioso visitam o local, adotam a garota, e a levam para viver em uma casa mágica. A mudança de cenário a coloca em confronto com uma nova dinâmica de poder: sua mãe adotiva, Bella Yaga, pode ser sua porta para aprender e dominar a magia, contanto que deixe de usar a criança apenas como um par de mãos extras no trabalho. E seu pai adotivo, um demônio interdimensional chamado Mandrake, pode ser a chave para essa mudança, contanto que ela navegue corretamente pelas poucas liberdades que passa a ter.

Mandrake, personagem de Aya e a Bruxa
Studio Ghibli/Reprodução

Com as peças colocadas para um potencialmente divertido jogo de xadrez, restaria a Goro conduzir arcos dramáticos convincentes para cada integrante do trio, a fim de pavimentar a estrada entre Aya e seus objetivos. Só que nem sua direção apressada e confusa, tampouco o roteiro preguiçoso e repleto de conveniências de Keiko Niwa e Emi Gunji permitem isso. Salvas algumas cenas divertidas, como o clímax revelatório da trama e as crises de raiva de Mandrake (melhor personagem do filme e um vislumbre em um ângulo diferente no arquétipo do pai severo frequente em animes como Evangelion, Naruto e até Dragon Ball), todos os pequenos conflitos que surgem entre a garota e seus pais adotivos são superficiais e insuficientes para realmente convencer e envolver o espectador. O pior: eles têm sua resolução fora da tela, com um salto de seis meses no futuro, alterando a realidade dos personagens drasticamente a menos de 10 minutos do rolar de créditos. É uma síntese emblemática da falta de contemplação que Goro coloca no próprio filme, talvez por saber que há muito pouco ali a ser contemplado.

Ao longo da estadia na casa mágica, Aya tem em uma fita-cassete deixada por sua mãe, bem como no gato falante Thomas, suas grandes companhias para aguentar a servitude. A música, ela eventualmente descobre, cumpre um papel fundamental não só em sua própria história, como também na de todos da casa, além do mistério acerca de sua mãe. É esse elemento, na realidade, que guarda a chave para aproximá-los ou permanentemente distanciá-los. E mesmo que a escolha por referenciar a psicodelia do rock britânico dos anos 1960 e 1970 não permita a elegância das trilhas sonoras clássicas do Studio Ghibli, é um aspecto conduzido com qualidade por Goro. Só é uma pena que, assim como o Mandrake, o carisma de Aya, ou qualquer outro componente competente de um filme que é, no geral, um fracasso, nada ali seja bom o bastante para ofuscar a dura realidade que insiste em ressoar na mente do espectador do início ao fim do filme: Hayao faria tudo melhor. Muito melhor.

Aya e a Bruxa
Āya to Majo
Aya e a Bruxa
Āya to Majo

Ano: 2020

País: Japão

Classificação: LIVRE

Duração: 83 min

Direção: Goro Miyazaki

Roteiro: Emi Gunji, Keiko Niwa

Elenco: Sherina Munaf, Kokoro Hirasawa

Nota do Crítico
Regular

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