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Ato de Coragem | Crítica

Filme de guerra com militares de verdade perde na comparação contra qualquer shooter de videogames e sequer é tão "de verdade" assim

Marcelo Hessel
02.08.2012
18h00
Atualizada em
21.09.2014
14h43
Atualizada em 21.09.2014 às 14h43

Não tem nada mais vago do que dizer que os filmes estão cada vez mais parecidos com os games. Parecidos como? Por causa da ação cronometrada, ininterrupta? Isso é mais uma reação de Hollywood a um suposto déficit de atenção do público do que, necessariamente, uma aproximação com os games. São os jogos, aliás, que hoje emulam as narrativas dos filmes, e não o contrário.

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Dito isso, não há nada em Ato de Coragem (Act of Valor) que o público-alvo desse filme já não tenha visto e jogado em qualquer Call of Duty. O longa-metragem dos diretores Mike McCoy e Scott Waugh é vendido como ineditismo, por ser protagonizado por militares de verdade, mas seu interesse é muito limitado para quem já se habituou a encarnar "militares de verdade" nos cada vez mais realistas shooters de guerra da atual geração de videogames.

O roteiro de Kurt Johnstad - que não por acaso tem no seu currículo de cinema apenas um filme, frequentemente comparado com games, 300 - coloca os Navy SEALs, a principal equipe de operações especiais da Marinha dos EUA, para impedir que um jihadista checheno e um traficante infiltrem homens-bomba no país pela fronteira mexicana. Embora no começo o filme diga que a trama é "baseada em atos de bravura reais", a premissa é obviamente fictícia e os coadjuvantes e vilões são vividos por atores profissionais.

Só os SEALs são "de verdade", enfim, mas isso não impede que eles sejam pintados no filme como idealizações do Herói Americano. Na vida real, o grosso dos homens que os EUA mandam para o front são jovens latinos e negros, frequentemente desempregados, que buscam na vida militar não só uma professada glória mas também um sustento para suas famílias. Em Ato de Coragem, os dois SEALs protagonistas, o tenente-comandante Rorke e o comandante Dave, são os estereótipos do quarterback fotogênico do colégio da Costa Oeste: casam-se com uma bela loira magra, orgulham-se de sua prole, pegam onda e fazem aquele churrasco entre amigos antes de embarcar numa missão.

Daria pra ficar aqui questionando outras liberdades poéticas (a cena do interrogatório parece um chá das cinco; cadê o waterboarding da vida real?), mas entrar na jogada de Ato de Coragem e testar cada ponto desse suposto realismo seria um erro; cinema é fabulação, afinal, independente do que diga a campanha de marketing do filme. Mesmo porque o que Ato de Coragem tem de "fiel" é muito aborrecido; só um fetichista deve se importar se o subordinado responde ao capitão com um "check" ao invés de "sim, senhor".

O que sobra é um filme que evita qualquer tipo de reflexão sobre a guerra que não seja repetir mantras da direita, e que mimetiza a estética dos shooters a ponto de tornar a câmera em primeira pessoa a sua principal perspectiva na hora do combate (mas só do ponto de vista dos heróis, claro). Ato de Coragem não percebe que só tem a perder nessa comparação, porque não tem como reproduzir a experiência de interatividade dos games. E até os personagens de computação gráfica de um Modern Warfare atuam melhor que os SEALs de Ato de Coragem.

Ato de Coragem | Cinemas e horários

Ato de Coragem
Act of Valor
Ato de Coragem
Act of Valor

Ano: 2012

País: EUA

Classificação: 16 anos

Duração: 110 min

Direção: Mike McCoy, Scott Waugh

Roteiro: Kurt Johnstad

Elenco: Roselyn Sánchez, Emilio Rivera, Nestor Serrano, Gonzalo Menendez, Alexander Asefa, Jeffrey Barnachea, Kenny Calderon, Raul Canizales II, Drea Castro, Sam Cespedes, Jimmy Chhiu, Charles Chiyangwa, Antoni Corone, Jason Cottle, Jesse Cotton, Craig H. Davidson, Juan Diaz, Aurelius DiBarsanti, Pedro Sergio Escobedo

Nota do Crítico
Ruim

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