Assassino sem Rastro

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Crítica

Assassino sem Rastro parece um episódio longo demais de Law and Order

Com pouca ação e muita enrolação, novo thriller testa, novamente, os limites de Liam Neeson

Omelete
3 min de leitura
Julia Sabbaga
08.06.2022, às 18H07

No início de Assassino sem Rastro, novo filme de ação estrelado por Liam Neeson, somos introduzidos ao seu personagem, Alex, um assassino por encomenda, realizando um de seus serviços. Depois disso, conhecemos Vincent, o personagem de Guy Pearce, que investiga cartéis e uma longa trilha de assassinatos infantis no México. Então, conhecemos Davana Sealman, a Monica Belucci, uma empresária podre de rica que comanda atividades misteriosas de seu escritório luxuoso em El Paso. Tudo isso acontece de forma tão desconexa quanto neste parágrafo - e Assassino sem Rastro demonstra uma dificuldade quase torturante de dar uma unidade a tudo isso.

Não é a simples falta de conexão imediata que atrapalha o ritmo desta história, mas sim o embaraço que o roteiro de Dario Scardapane tem de montar esse quebra-cabeças de um jeito fluido e coerente. Durante quase metade do filme - que tem suas boas duas horas -, as diversas histórias apresentadas simplesmente não conversam entre si. O caso demora a se revelar e, quando se torna claro, o espectador está tão cansado quanto o pobre assassino por encomenda, enviado, obviamente, para “sua última missão antes da aposentadoria”.

É um longo caminho até que a gente perceba que Alex talvez não seja tão malvado assim e que (oh, surpreendam-se), assassinos por encomenda têm sim uma consciência e, aqui, o limite é a execução  de crianças. A dúvida paira, claro, sobre se Alex realmente nunca foi comandado a realizar um crime do tipo em sua extensa carreira - algo altamente improvável -, mas para que o roteiro funcione, é nisto que precisamos acreditar. A suspensão de descrença, no entanto, é muito mais difícil de acionar quando o contexto é um labirinto longo e não muito intrigante, que se segura na performance de Neeson e alguns coadjuvantes notáveis. 

E falando nisso, é necessário sim reservar um momento para destacar a performance de Neeson em Assassino sem Rastro, porque ela não deixa de chamar atenção. Não é nenhuma surpresa que o irlandês seja um ator de habilidades notáveis, mas desde que deixou personagens complexos para trás, seus elogios sempre focaram em suas capacidades físicas. Desta vez, Neeson vive um assassino com Alzheimer, diagnóstico que prejudica o exercício de sua função e entrega uma oportunidade para que o ator expanda a persona de cara-durão comum. Parece forçado? Talvez, mas fato é que Neeson ainda impressiona quando quer, e os momentos que o filme se deixa levar pela sua atuação são seu melhor aspecto.

A doença exige que o personagem escreva coisas em seu corpo para não perder o fio da meada (e remete à questão: será que a escalação de Pearce neste contexto é um easter egg de Amnésia?), um recurso estiloso que poderia ganhar foco, mas é subaproveitado. Toda complexidade que um assassino superando essa dificuldade poderia render cai no segundo plano dada a complicada teia de autoridades e criminosos de Assassino sem Rastro. É uma pena, porque no miolo dessa história - refilmada do longa belga de 2003 - existe um fio que renderia um ótimo episódio de Law and Order. 

Assassino Sem Rastro
Memory
Assassino Sem Rastro
Memory

Direção: Martin Campbell

Elenco: Guy Pearce, Liam Neeson, Monica Bellucci

Nota do Crítico
Regular

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