Assalto à Brasileira é retrato tragicômico de um caos genuinamente brasileiro
Protagonizado por Murilo Benício e Christian Malheiros, o filme transforma um dos casos mais surreais da polícia nacional em uma das obras mais surpreendentes e autênticas do cinema nacional recente.
Sabe quando você vive algo tão surreal e diferente que pensa: "Isso poderia dar um filme"? Acredito que foi exatamente isso que as pessoas presentes naquele banco, durante o assalto na manhã de dezembro de 1987 em Londrina, pensaram. Além delas, quase quarenta anos depois, o diretor José Eduardo Belmonte também viu potencial nesse acontecimento e o eternizou nas telas do cinema em uma obra surpreendente, tragicômica e profundamente brasileira.
Assalto à Brasileira conta a história de um dos casos mais surreais e intrigantes da polícia nacional — uma trama tão absurda que chega a ser engraçada. No início do dia 10 de dezembro de 1987, sete homens sem qualquer experiência em assaltos, liderados por Moreno (Christian Malheiros) e Barba (Robson Nunes), invadem um banco para roubar o cofre, fazendo todos os presentes de reféns. O que eles não esperavam era encontrar o caixa sem dinheiro e ver a polícia cercar a fachada do prédio com extrema rapidez.
Preso no prédio junto com os reféns está Paulo (Murilo Benício), um jornalista recém-demitido que, ao perceber a inexperiência dos assaltantes, enxerga a oportunidade de assumir o controle da situação, salvar vidas e escrever a maior reportagem de sua carreira. Ele se oferece para negociar com o chefe da polícia (Paulo Miklos) no lugar dos criminosos, dando início a uma sucessão de acontecimentos que marcariam para sempre a história daquelas pessoas e de toda a cidade.
É visível o cuidado de Belmonte em contar essa história respeitando os fatos reais, sem deixar de construir uma obra com identidade artística própria. O uso da verdadeira fachada do banco (restaurada para as filmagens), a reconstrução do interior em estúdio respeitando a planta original e a escolha do mesmo modelo de ônibus em uma das cenas mais cruciais demonstram a precisão visual que transporta o espectador diretamente para a época.
Outro detalhe importante foi revelado pelo diretor em entrevista ao Omelete, na qual contou que teve a consultoria de pessoas que foram reféns no evento real. Algumas delas, inclusive, integraram o elenco de figurantes do longa. A presença dessas testemunhas no set garantiu a inclusão de momentos cômicos daquele dia, curiosidades de que só quem estava no banco durante o assalto saberia — como quando os assaltantes compraram as roupas dos próprios reféns com o dinheiro do caixa, ou quando todos dividiram uma garrafa de bebida no meio da tensa negociação com a polícia.
O maior desafio da produção foi traduzir o gênero de "filme de assalto" — tão consagrado pelo cinema internacional — para a dinâmica brasileira, com personagens que refletem o país tanto de ontem quanto de hoje. O risco de cair em estereótipos ou no lugar-comum era alto, mas Belmonte dosou tragédia e comédia com maestria, costurando tudo com uma brasilidade apaixonante.
Assalto à Brasileira vai além da simples reconstituição de um crime. O longa se consolida como um retrato afetuoso e perspicaz sobre a capacidade do brasileiro de encontrar humanidade e resiliência até nas situações mais caóticas. Um filme cativante para quem aprecia o bom cinema nacional e quer se surpreender com uma história em que a realidade supera — e muito — a ficção.
Assalto à Brasileira
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